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20 Julho, 2008

Castigo divino

Hipnos e Tânatos carregam o corpo de Sarpédon

_____Os deuses pedem sacrifícios a todos os mortais. Se não respeitamos esses sacrifícios, os deuses nos castigam. Hipnos, o deus do sono, pede que eu sacrifique a ele algo que é muito precioso para mim: o meu tempo. Hipnos quer que eu utilize muitas horas da minha vida para dormir.

_____O problema é que eu o desrespeitei. Não sacrifiquei a Hipnos todo o tempo que ele gostaria. Como castigo pela minha falta de horas dormindo nas últimas semanas, ele tomou minha saúde.

_____Estou doente já faz uns dias, com uma imensa dor de garganta. Comer é necessário caso eu queira apaziguar a fúria do deus. O castigo dele, vale dizer, é bastante cruel, pois não só eu tenho de comer apesar da dor de garganta, como, também, acabo não sentindo o gosto de nada.

_____Fiz a burrada de contar para minha namorada o estado atual do meu paladar. Ela, então, disse: “Já que você não sente o gosto de nada, acho que é um bom momento para fazer você comer as saladas que você tanto despreza.”.

_____Tenho certeza que Hipnos está rindo até agora.

14 Julho, 2008

Exposição para ler Machado de Assis

_____Amanhã, terça-feira, será aberta ao público a exposição “Machado de Assis, mas este capítulo não é sério”, a nova exposição temporária do Museu da Língua Portuguesa. Graças a um caso que tenho com uma moça que trabalha no Museu aos meus contatos, consegui ver a mostra na abertura para convidados e aproveito para indicá-la para os meus leitores.
*****
Machado de Assis

_____Brincalhona desde o seu nome, a exposição é toda dividida em capítulos. Mas, atenção, apressado leitor, não comece o passeio sem antes pegar o impresso-guia. O livreto provoca os passos do público a cada nova divisória da exposição. Aconselho uma rápida leitura de cada capítulo do guia antes de adentrar a secção correspondente – não consultá-lo é garantia de que se irá perder um interessante contraponto, uma boa curiosidade (como, por exemplo, um palavrão publicado indevidamente em uma obra do recatado Machado).
_____A exposição toda parece montada com o ideal de atrair novos leitores e não deixa de usar os mais diversos recursos para isso. O “Capítulo XXX: Irreal Gabinete de Leitura” é um ótimo exemplo: brincando o tempo todo com claros e escuros, leituras, sons e imagens em vários pontos da sala, só peca por carecer de melhores interpretes para alguns textos. Talvez conhecer Raquel Kogan, autora da obra “Reler” (exposta atualmente no Itaú Cultural), que fez um ótimo trabalho com contatos atípicos com a leitura, enriquecesse esse tipo de experiência.
_____A seleção dos textos, mesmo atentando quase que somente aos maiores clássicos machadianos, é ótima e bem distribuída. Até nos banheiros, parte integrante das mostras temporárias do Museu da Língua, podem ser encontradas leituras condizentes (perto da porta do banheiro feminino, por exemplo, o publico pode se deliciar com o provocativo “Uns braços).

Uns braços
_____A exposição não é destinada a quem tem pressa. A graça é ir para ficar com vontade de ler Machado de Assis; e ler mesmo. Não só no impresso-guia o leitor ganha um conto para levar para casa, como, também, no final da exposição, centenas de livros estão disponíveis para que o público possa sentar e se deliciar com as obras do Mulato Sabido.
_____Como costumam ser os trabalhos do Museu da Língua, vale muito à pena visitar. Para quem for, deixo o adágio de Brás Cubas que, debochadamente, os guias da exposição expõem em suas camisetas: “A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.”.

28 Junho, 2008

É uma casa muito engraçada...

A cara da sua casa

_____Já disse, mais de uma vez, como adoro morar em Sampa. Um dos motivos para isso é a constante oportunidade de encontrar coisas inusitadas. Há uns meses, um maluco, que mora perto de mim, resolveu pintar a parede da própria casa com a estranha carinha acima. Não sei se existe algum objetivo comercial ou coisa do tipo; de qualquer modo, é bem divertido.

_____Só espero que a “Lei cidade limpa” não dê mais um dos seus vexames e obrigue o dono da casa a acabar com a brincadeira.

14 Junho, 2008

Mais do mesmo

_____Fui assistir Antes que o Diabo saiba que você está morto, de Sidney Lumet$, e saí do cinema com uma enorme sensação de que eu já havia visto aquilo em algum lugar. Depois de passar um tempão pensando, descobri o motivo: a base da história é a mesma da de Cães de aluguel$, do Quentin Tarantino$.

_____É claro que existem vários pontos diferentes (personagens, situações, características de cada um dos filmes), não estou dizendo que é um plágio, mas o caminho central é igual. Exatamente como Anjos e demônios$ e O código da Vince$, do Dan Bown$. Qualquer um que leu os dois livros sabe que a base de ambos é igual. Tão igual que, se eu fosse o autor$, teria ficado com vergonha de aparecer com os dois a público.

_____Tudo isso para dizer que, se houver a possibilidade de escolher, é melhor alugar e ficar em casa (re)assistindo Cães de aluguel$ do que ir ao cinema para ver Antes que o Diabo saiba que você está morto. Se a escolha for entre os livros do Dan Brown$ e o Cães de aluguel$, fique, novamente, com o Tarantino$.

11 Junho, 2008

Lugar indevido

Sopas "coma colorido"

_____Não é novidade para ninguém que as propagandas devem ser colocadas no lugar certo para conseguirem um resultado melhor na hora de venderem os produtos anunciados. Não é a toa que nunca vejo trailers de filmes de terror quando vou assistir a um desenho no cinema e vice-versa. A porta de uma igreja, por exemplo, não é o lugar mais adequado para se colocar um outdoor com a Playboy$ do mês (a não ser que o número seja da “Edição Especial Coroinhas”).

_____Porém, pelo visto, não avisaram o pessoal da Knorr$ sobre essa regra básica da publicidade.

_____Eu estava, dia desses, assistindo House$ na televisão. Para quem não sabe, House$ é um seriado em que um médico genial e mal-humorado (o Dr. House) trata, com sua equipe de assistentes, de casos difíceis de diagnosticar. No episódio que eu estava assistindo, acontece uma cena tensa em que o paciente tem de ser socorrido às pressas e acaba entrando em coma. Close dramático da câmera e entram os comerciais.

_____Eu não estava prestando muita atenção nas propagandas, mas, como era hora do almoço e eu estava com fome, um comercial da Knorr$ me atraiu. Fiquei olhando o comercial de sopa/creme até eles anunciarem o slogan da linha: “Coma colorido$”.

"Coma colorido" - Laranja

_____Tudo bem, o creme pode até ser gostoso, mas, convenhamos, durante os reclames de um seriado sobre medicina$ não é hora de anunciar uma sopa da linha “Coma colorido$”.

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P.S.: Para os fãs de House$, escrevi outro textinho divertido sobre ele no mês passado. Aproveitem.

01 Junho, 2008

Som, Ritmo, Movimento e o que todos os jovens em idade escolar deveriam ter direito

Crianças do Projeto Som, Ritmo e Movimento
_____Semana passada, o pessoal do Blog Content :) me convidou para participar da abertura da edição de 2008 do Projeto Som, Ritmo e Movimento. O Projeto faz parte dos programas educacionais da ONG Ação Comunitária.

_____Por mais de quatro décadas a Ação Comunitária vem fazendo um interessante trabalho de inclusão social com jovens de locais menos favorecidos economicamente da zona sul do município de São Paulo e região. Há três anos, eles começaram a investir no Projeto Som, Ritmo e Movimento que, com atividades culturais e de lazer, procura ampliar o universo cultural dos seus participantes.

_____O Projeto é destinado para jovens com idade entre 2 e 21 anos e trabalha com atividades desportivas, dança, musicalização, teatro e capoeira, além de organizar visitas monitoradas a museus, espetáculos e afins. Em suma, jovens com menos recursos acabam tendo a chance de aproveitar atividades culturais que qualquer colégio particular minimamente razoável ofereceria aos seus alunos.

_____No final de cada edição anual do Projeto, é realizada uma mostra cultural com a produção dos educadores e dos jovens participantes. Quem, assim como eu, foi para a abertura do Projeto deste ano recebeu como brinde um CD com o resultado das atividades de musicalização realizadas em 2007. O disco é bastante divertido, com um repertório semi-infantil composto principalmente por canções populares e em domínio público. Mesmo lembrando, não é um trabalho de tão alta qualidade quanto o dos CDs do Palavra Cantada, porém, de qualquer modo, não deixa de ser um ponto de trabalho bastante importante para a ampliação do conhecimento artístico dos jovens participantes.

Capa do CD do Projeto Som, Ritmo e Movimento.

_____O resultado de toda essa ação, vale dizer, é muito positivo. Os beneficiados pelo projeto têm a possibilidade de ter um contato maior com a cultura, que é bem mais do que as escolas públicas absurdamente ruins que esses jovens têm possibilidade de freqüentar costuma oferecer.

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P.S.: Quem quiser conhecer mais sobre a Ação Comunitária e seus projetos, pode acessar o site da instituição. Sendo uma ONG sem fins lucrativos, ela está constantemente em busca de auxílio para a manutenção de suas atividades. Quem quiser ajudar (empresas ou pessoas) pode entrar em contato por telefone (5843-2912) ou e-mail (info@acomunitaria.org.br).

P.P.S.: Aproveito para agradecer ao pessoal do Blog Content :) por ter me convidado para um evento tão interessante e, em especial, ao Gustavo Jreige por toda atenção e auxílio.

28 Maio, 2008

Quem precisa de instrumentos musicais?

_____Para quem gosta de boa música e de algo diferente, talvez acabe se divertindo tanto quanto eu ouvindo o Rockapella e o True Image.

_____No vídeo acima o Rockapella está cantando “Zombie Jamboree” e o True Image, “I need you”. Uma graça, não? Procurem mais que vocês não vão se arrepender.


26 Maio, 2008

Sexo seguro e cidadania

Lixo no chão do metrô

_____Estão vendo todo esse lixo no chão de um vagão do metrô? Cruzei com ele hoje ao pegar o trem. Sabem o que era? Pacotes de papelão que continham preservativos, distribuídos gratuitamente pela prefeitura durante a XII Parada GLBT.

_____Todos estavam devidamente vazios. Mesmo assim, são pacotes bem interessantes. A parte externa expõe um misto do símbolo da Parada Gay com o da campanha contra o HIV e as palavras “Prevenção e Cidadania”. A interna dá informações sobre os serviços municipais especializados em doenças sexualmente transmissíveis e detalhes mais específicos sobre como contrair e como evitar a AIDS. Todas as informações podem ser encontradas no site www.dstaids.prefeitura.sp.gov.br.

Prevenção e Cidadania

_____Gostei muito do envelope das camisinhas. Acho, vale dizer, bastante importante que ele contenha tantas informações sobre DSTs. Só espero que eles façam uma modificação para o ano que vem. Creio que, na própria capa, perto do local em que está escrito “Prevenção e Cidadania”, seria importante colocar um glossário explicando o que “cidadania” significa. É bom, inclusive, deixar claro que a palavra não combina muito com jogar lixo no chão.

P.S.: Para quem se interessou pelo tema, talvez este meu texto antigo interesse um pouco.

22 Maio, 2008

As origens do mal-humor de House

Senhor Frederick Little
_____Dia desses eu estava assistindo O homem da máscara de ferro, de Randall Wallace, e, em um determinado momento, achei que um dos conselheiros do Leonardo DiCaprio rei Luis XIV era o Hugh Laurie, o ator que interpreta o House. Como não passaram os letreiros completos, depois do filme, fui conferir a biografia de Laurie para ver se ele havia mesmo trabalhado no filme.

_____Fiquei surpreso ao descobrir que, antes de fazer sucesso como House, Laurie não só havia sido conselheiro do rei, em O homem da máscara de ferro, como, também, havia feito muitos outros papéis menores. Até aí, tudo normal – pode dizer algum leitor –, esse costuma ser o caminho de quase todos os atores que não fazem teste do sofá. Porém, as coisas não são bem assim. O pobre do House Hugh Laurie fez um monte de papéis pequenos que, com certeza, esgotariam a paciência de qualquer ator.


_____Laurie foi o pai adotivo do ratinho Stuart Little, bandido em 101 Dálmatas e, até, trabalhou no Spice World, o filme das Spice Girls. Sem contar que, nO homem da máscara de ferro, a última participação dele no filme foi quando o Luis XIV condenou ele à morte. Não é à toa que ele virou um médico mal-humorado.


P.S.: Encontrei um vídeo que, teoricamente, fez parte da audição que Hugh Laurie fez para ser escolhido para atuar em House M.D.. Prestem atenção na cara de “acordei atrasado para o teste” que o coitado está.


P.P.S.: Quem gosta de House, talvez se divirta com o “Gerador automático de episódios de House”, do blog 7 regras básicas.

P.P.P.S.: E, quem gosta de ver o Hugh Laurie fazendo papel de mal-humorado, talvez se divirta vendo essa participação dele em Friends.


12 Maio, 2008

O Eixo das Drogas: Paraíso-Consolação

Uma análise dos piores cinemas da região da Paulista

_____Não é segredo para nenhum paulistano interessado em cultura que a Avenida Paulista é um local absurdamente profícuo. Tanto na Avenida, como em grande parte dos seus entornos, é fácil encontrar teatros, museus, cinemas e diversas outras opções culturais de muita qualidade.

_____É exatamente pelas ótimas ofertas que a região oferece que resolvi, hoje, listar quais são as três piores salas de cinema da Paulista para que os leitores as evitem e/ou para que seus responsáveis tomem providências para melhorá-las.

3ª lugar: Bristol

_____Qualquer cinéfilo paulistano sabe: sala de cinema da Playarte não é sinônimo de qualidade. Apesar do Bristol ser razoavelmente novo e um dos poucos multiplex da Playarte, os traços da decadência que as salas da empresa costumam ostentar estão bem presentes. Algumas salas são mal projetadas e todas parecem mal conservadas. A limpeza, principalmente em dias de grande movimento, deixa bastante a desejar. Provavelmente o cinema não está em pior estado graças aos seus poucos anos de vida.

_____Os funcionários parecem tão bem treinados quanto atendentes de repartições públicas. Raramente sabem informar algo sobre o filme e têm, ainda, o desprezível costume de passear pelas salas durante as sessões.

_____A bilheteria é localizada em um dos cantos da praça de alimentação do Shopping Center 3, o que torna a compra de ingressos bastante desconfortável em algumas horas do dia. Os confusos monitores que informam os horários dos filmes, vale dizer, servem como a cereja do bolo na hora de dificultar a compra de ingressos.

_____Apesar disso tudo, justiça seja feita: o Bristol conta com bons assentos e, vale ressaltar, tem a enorme vantagem de ser o único cinema da região da Paulista com poltronas com braços que levantam. É muito incomodo ir para os outros cinemas da região e nunca poder assistir a um filme abraçado confortavelmente com a sua companhia.

Multiplex Bristol – Avenida Paulista, 2064

2ª lugar: Gemini

_____O Gemini é um cinema antigo que ainda resiste bravamente. Apesar da idade, não está tão deteriorado. Isso não significa, de maneira alguma, que não seja necessária uma bela reforma nas suas salas.

_____O preço não costuma ser tão salgado quanto o dos cinemas atualmente, mas isso não significa que alguém possa aproveitar para assistir uma sessão seguida da outra, pois as poltronas são bastante desconfortáveis (ninguém com problemas de coluna conseguiria agüentar mais um filme nelas). Duras, sem porta-copo, nem encosto de cabeça, elas ainda têm o problema de ficar em salas de pouca inclinação (qualquer espectador maior que Napoleão Bonaparte, pode se tornar uma cabeça na frente do seu filme).

_____Vale dizer, não são apenas as cadeiras que precisam ser renovadas. O carpete que forra as paredes está tão velho que chega a ser nojento sentar-se nos cantos das salas, mesmo sendo possível notar que o trabalho de limpeza do cinema é aceitável.

_____Além da programação bem variada para um cinema de apenas duas salas, o grande trunfo do Gemini é ter funcionários extremamente bem educados, sempre prontos para atender os clientes e informar sobre as promoções do cinema. Dá gosto ser tão bem atendido.

Gemini – Avenida Paulista, 807

1º lugar: Paulista

_____O grande campeão, eleito como o pior cinema da região não poderia ser outro que não o cinema do Shopping Pátio Paulista. Também da rede Playarte, o Paulista conta com os mesmos problemas que o seu irmão de empresa (má conservação, funcionários que parecem ter sido treinados em um celeiro), elevados pelos seus já excessivos anos de vida.

_____Como é mais velho que o Bristol, suas poltronas são de modelos mais antigos: não têm encosto de cabeça, não levantam os braços, nem são muito confortáveis. São melhores que as do Gemini, mas isso não lá é muita vantagem (sou melhor que o Stephen Hawking na queda de braço, mas não enumero isso como uma qualidade). Parece que a única vantagem real do Paulista é ter uma bilheteria que não dificulta para o público descobrir qual o horário dos filmes que estão em cartaz.

_____A limpeza é mais precária do que a de latrina de soldado. Desde os espaços entre as cadeiras ao carpete da parede, existem muitos pontos nojentos nas salas. Deve até ser por isso que eles deixam de trocar algumas lâmpadas que queimaram.

_____Sinceramente, pelo modo como a Playarte cuida de suas salas, fico triste em saber que são eles a reformar o velho Marabá no centro de São Paulo. Pelo menos no Shopping Paulista, outra empresa está organizando reformas para abrir novas salas.

Paulista – Rua 13 de Maio, 1974

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_____Pode até parecer que sou um pouco duro em minhas críticas, mas a verdade é que os cinemas da Paulista são bastante bons. É claro que todos precisam melhorar em alguns pontos (principalmente no preço), mas achei importante ressaltar quais são os cinemas que mais precisam de melhoras.

P.S.: Essa postagem faz parte do projeto “Blogueiro repórter”, organizado pelo Edney Souza. O tema do texto foi livremente adaptado de uma fala do Edney, que afirmou que não publicaria uma matéria que falasse sobre o Eixo das Drogas Rio-SP.


06 Maio, 2008

O fim justificado da civilização asteca

_____Não precisei ler As veias abertas da América Latina para me revoltar com o absurdo que os espanhóis fizeram com as civilizações pré-colombianas da América. Claro que o interessante livro de Eduardo Galeano fez com que eu me revoltasse ainda mais, porém, desde que tenho o mais básico conhecimento de História, eu já sentia uma grande sensação de revolta pelo desleal massacre. Mesmo depois que me tornei historiador e conheci muito mais sobre o tema, pouco de minha opinião sobre o extermínio dos povos pré-colombianos mudou. Até ontem.

_____Ontem, entrei na cozinha e vi, em cima da mesa, uma garrafa de Groselha Asteca. Sedento por lembrar do delicioso gosto da bebida, coloquei um tanto em um pequeno copo e entornei o líquido garganta abaixo. Por Clio, que horror! Aquilo queimou minha garganta; era ruim que até doía. Tão doce que foi por muito pouco que não me tornei diabético instantaneamente. Praguejei conta a groselha. Cheguei mesmo a dizer que, se os astecas haviam servido aquela bebida para o Cortez, que o massacre estava justificado.

Groselha Asteca

_____Minha namorada, vendo minhas injúrias, perguntou o que havia acontecido. Expliquei para ela o ocorrido. Ela, entre gargalhadas, explicou para o ignorante do namorado dela, que eu deveria misturar o líquido da garrafa com água para que aquele “veneno mexica” virasse mesmo groselha (estava nas letrinhas miúdas da garrafa).

_____Sentindo-me, pela segunda vez na mesma semana, o ser mais estúpido do mundo, segui a receita dela e, admito, a bebida ficou muito gostosa. Diga-se de passagem, minha namorada também me ensinou a colocar umas gotinhas de limão no líqüido fica ainda melhor (se eu já conhecesse esse truque quando criança, teria gostado mais ainda de groselha).

_____O melhor desta história toda é que continuo achando o massacre espanhol um absurdo e não vou mudar mais de opinião nem se me servirem xocoatl*.

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* Bebida mexica, derivada do cacau, de gosto muito amargo.


28 Abril, 2008

Palco das meninas

_____Como grande parte dos usuários de internet, acabei conhecendo a tão falada Mallu Magalhães graças a reverberação que ela teve na rede. Ouvi a menina e gostei; vi alguns dos seus vídeos no You Tube e me diverti bastante. Sendo assim, quando descobri que ela iria tocar na Virada Cultural, fui, feliz e contente, assisti-la.

_____Tenho vários comentários para fazer sobre o show folk dela, porém não é sobre isso que pretendo falar. Resolvi escrever aqui para relatar um fato curioso. A apresentação da Mallu Magalhães aconteceu em um local da Virada chamado de Palco das Meninas. O nome do palco foi uma referência ao fato de que todas as apresentações teriam como foco principal alguma cantora. A graça é que, pelo visto, uma boa parte do público não sabia disso.

_____Como o local recebeu o nome de Palco das Meninas, o número de lésbicas no local era bastante significativo. Tanto antes da apresentação da Mallu, quanto durante e depois, o número de lésbicas que apareceram por lá foi muito grande. Creio que boa parte delas não estavam informadas sobre qual a temática daquele palco (como um monte de freqüentadores de diversos eventos da Virada) e julgaram o livro pelo título.

_____Queiram ou não, foi inusitado. Fez com que eu me lembrasse do tempo em que freqüentei muitos barzinhos GLS.

27 Abril, 2008

Estátua mais do que viva

_____Estou um tanto cansado, pois acabei de participar, quase que direto, de vários eventos da Virada Cultural. Foi uma delícia, acabei me divertindo até não poder mais.

_____Quando cheguei em casa, porém, ao conversar com a minha família sobre o que eu havia visto e gostado, fiquei intrigado com o resultado. Mesmo tendo visto parte de um workshop de culinária judaica, apreciado a feitura de um HQ ao vivo, escutado alguns shows de rock e de blues (além do show folk da Mallu Magalhães), visto algumas apresentações teatrais, participado de uma roda de samba, assistido uma apresentação de piano, ido para algumas exposições e um monte de outras atividades, o que mais gostei neste ano foi de uma estátua viva.

_____Sempre vejo pela Paulista artistas de rua tentando ganhar uns trocados como estátuas vivas e raramente gosto. Entretanto, dessa vez, eu fiquei um tempão olhando o artista, o cara era absurdamente bom. A movimentação dele na hora de agradecer as moedas era hipnotizante de tão bem feita. Sem contar a maquiagem. Fiquei tão atônito com o cara que até me esqueci de tirar uma foto para mostrar para vocês.

_____O mais interessante, é que essa estátua viva foi o único trabalho artístico que não estava ligado à Virada que eu presenciei neste final de semana e, no fim das contas, foi o que eu mais gostei. Deveria ter anotado o contato do cara.

23 Abril, 2008

Contra o analfabetismo? Mesmo?

_____Grande parte dos blogs que leio, acabo lendo por meio do Google Reader, meu leitor de feeds. Mesmo sendo fácil e cômodo, tem o problema de fazer com que eu deixe acumular algumas leituras e acabe lendo muitos textos com certo atraso.

_____Acabei de ler, por exemplo, um texto interessante do Allan, do blog Carta da Itália, sobre a campanha “A blogosfera brasileira contra o analfabetismo” que acabou me dando um novo assunto para tratar com vocês. Mesmo sabendo que os textos contra o analfabetismo deveriam, para participar da campanha, ter sido publicados no dia 18, creio que tenho um texto interessante que vale ser revisitado por conta dessa discussão. É o “NoCu da professora”, publicado aqui no Incautos em novembro do ano passado.









_____Escrevi o “NoCu da professora” por ter encontrado um texto absurdamente mal escrito que uma professora de História de uma escola pública paulistana passou para os seus alunos. Sinceramente, se querem fazer uma campanha contra o analfabetismo, eu aconselho que, caso a “blogagem coletiva” sobre o tema se repita no próximo ano, não adotem como tema simplesmente “blogagem coletiva contra o analfabetismo” e, sim, “blogagem coletiva contra o analfabetismo dos professores”.

_____Tentar combater o analfabetismo sem pessoas realmente preparadas para isso é um pouco difícil. Como disse o Allan, o MOBRAL, um dos programas brasileiros de alfabetização, “ensinava” as pessoas “a ler e escrever, mas poucos alunos saíam de lá com capacidade de compreender e interpretar textos de uso cotidiano. Produzir um texto escrito, então, nem se fala.”. E, como bem lembrou o Doni, do Hedonismos, a pressão da sociedade para que algo melhore é muito importante.

_____Uma sociedade que não se importa com professores semi-analfabetos “ensinando” tem graves problemas. Para não citar apenas o meu texto como exemplo, pergunto: vocês nunca cruzaram com um blog de um professor que escrevia excessivamente mal? Quando encontraram esse blog, fizeram algum comentário público? Enviaram, pelo menos, algum e-mail para o “professor” semi-analfabeto autor do blog? Ignorar o problema, com certeza não ajudou a resolvê-lo.


P.S.: Já que a “blogagem contra o analfabetismo” foi feita no dia 18, dia nacional do livro infantil, aproveito para contar que, por coincidência, tive a sorte de publicar este texto aqui no blog hoje, dia 23/IV, dia mundial do livro.

P.P.S.: Diga-se de passagem, no dia do livro existe um costume em parte da Espanha que eu achei uma graça. As mulheres dão um livro de presente para os homens e recebem, como retribuição, uma rosa. Lindo, não?

15 Abril, 2008

Caridade inteligente

_____A revista Ocas” poderia ser apenas mais uma revista de esquerda que trata de temas ligados à cultura, à política e à sociedade. Entretanto, ela tem um projeto social bem definido que faz dela única: o objetivo principal da revista é ajudar pessoas em situação de rua.

_____Por mais atípico que pareça, a revista não é vendida em bancas de jornal. Em circulação desde 2002, a Ocas” só pode ser encontrada em determinados pontos culturais da cidade*, vendida por moradores de rua credenciados. Os vendedores ficam com dois terços do preço de capa (eles compram a revista por um real e vendem por três), conseguindo, assim, um apoio financeiro para tentarem se reintegrar socialmente, mudando a atual situação marginal em que vivem.

_____Tentando auxiliar um pouco o projeto, alem de ser um leitor fiel, na edição deste bimestre (a edição de março/abril, número 58), eu colaborei com um artigo (que a editora chefe fez o favor de mutilar um pouquinho). Portanto, os leitores do blog que se divertem com minhas estripulias literárias, podem ler uma reportagem minha no último número. É um artigo de duas páginas, sobre academias de dança de salão que fazem trabalhos sociais. Está publicado nas páginas 24 e 25, com meu nome verdadeiro (não com o meu pseudônimo de personagem de clássico grego).

_____Por enquanto, eu não vou publicar o artigo por aqui, pois vai ser bem bacana se eu conseguir fazer com que algum dos meus leitores dê uma mão para a revista. O projeto da Ocas” é muito bonito e creio que eles merecem uma chance. Acreditem, sempre aparece alguma reportagem bem interessante nas suas edições (obviamente, o artigo mais interessante da edição de março/abril é o meu, mas vocês podem encontrar outros que também são válidos ;-)). Espero que gostem.

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* Pelo que eu saiba, a Ocas" é vendida, atualmente, apenas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Vocês podem dar uma olhada onde comprá-la no site da revista.

07 Abril, 2008

Arte de rua?

_____Na saída do trabalho, no caminho para o metrô, encontrei uns três quadros, em esquinas diferentes, simplesmente encostados na parede. O quadro abaixo é um dos exemplares.

Quadro anônimo

_____Nem imagino se era um maluco que resolveu abandonar pinturas aos poucos ou uma intervenção artística. Só sei que são coisas estranhas como essa que faz com que seja tão legal morar em São Paulo.

03 Abril, 2008

Exatidão inexata

_____Outro dia eu estava reclamando da minha dificuldade para escolher títulos. Hoje, dando uma olhada na Folha de São Paulo, descobri que o problema não é só meu. Vejam a chamada esportiva na capa (abaixo da dobra): “São Paulo vence aos 48 min”.

Capa da Folha

_____Nada contra fazerem uma chamada jornalística dando o momento exato do gol, mas, se querem fazer isso, pelo menos mantenham a coerência. Dentro da própria Folha, no título da reportagem, na capa do caderno “Esporte”, o gol tricolor passou para o minuto seguinte:

Capa do caderno "Esporte", da Folha

01 Abril, 2008

O triunfo da morte: Incautos do ontem

_____Desde que inaugurei este blog, venho tentando escrever uma apresentação do autor e uma justificativa para o título. Nenhum dos textos que escrevi até hoje me agradaram. Talvez este texto de hoje, composto para justificar o banner que gentilmente o ilustrador Hector Gómez Alisio fez para o blog, sirva para, pelo menos, explicar melhor o nome da casa.

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_____Peter Brueghel, o velho, foi um pintor flamengo do século XVI que é, até hoje, célebre por seus quadros que retratavam (muitas vezes em apenas uma mesma pintura) inúmeras cenas. Isso pode ser facilmente percebido, por exemplo, no quadro O triunfo da morte, escolhido para ilustrar o banner deste blog.

O triunfo da morte