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18 Julho, 2008

Como trazer a pessoa amada em um semestre

_____O mundo acadêmico é muito engraçado. Dando uma olhada nas matérias que serão oferecidas no segundo semestre para ver se alguma se adéqua aos meus horários, descobri, no Instituto de Psicologia, a disciplina “Psicologia Experimental – Relacionamento amoroso: teoria e pesquisa”.

_____Claro, nada contra alguém se especializar no tema (parece bem mais interessante do que um médico que decide se especializar em proctologia). Deve ser ótimo para se ter no currículo. Só fica a curiosidade de como será ministrado um curso desse tipo.

_____Pedir algum pré-requisito poderia excluir um bom tanto de alunos, entretanto prometer alguma aula prática seria fantástico para lotar as salas. A parte de pesquisa, então, deve ser interessantíssima (só não deve ser tão legal assim discutir a relação). Queira ou não, o programa do curso começa bem, o primeiro tópico é sobre a “Escolha de um parceiro amoroso.”. Levando em consideração o número muito superior de mulheres na Psicologia, parece bem promissor.

_____Só há um pequeno ponto do programa que eu acredito que valeria à pena deixar mais claro: a avaliação. Ainda estou muito curioso para saber o que o professor responsável pelo curso quis dizer ao colocar “provas práticas” como critério avaliativo.

14 Julho, 2008

Exposição para ler Machado de Assis

_____Amanhã, terça-feira, será aberta ao público a exposição “Machado de Assis, mas este capítulo não é sério”, a nova exposição temporária do Museu da Língua Portuguesa. Graças a um caso que tenho com uma moça que trabalha no Museu aos meus contatos, consegui ver a mostra na abertura para convidados e aproveito para indicá-la para os meus leitores.
*****
Machado de Assis

_____Brincalhona desde o seu nome, a exposição é toda dividida em capítulos. Mas, atenção, apressado leitor, não comece o passeio sem antes pegar o impresso-guia. O livreto provoca os passos do público a cada nova divisória da exposição. Aconselho uma rápida leitura de cada capítulo do guia antes de adentrar a secção correspondente – não consultá-lo é garantia de que se irá perder um interessante contraponto, uma boa curiosidade (como, por exemplo, um palavrão publicado indevidamente em uma obra do recatado Machado).
_____A exposição toda parece montada com o ideal de atrair novos leitores e não deixa de usar os mais diversos recursos para isso. O “Capítulo XXX: Irreal Gabinete de Leitura” é um ótimo exemplo: brincando o tempo todo com claros e escuros, leituras, sons e imagens em vários pontos da sala, só peca por carecer de melhores interpretes para alguns textos. Talvez conhecer Raquel Kogan, autora da obra “Reler” (exposta atualmente no Itaú Cultural), que fez um ótimo trabalho com contatos atípicos com a leitura, enriquecesse esse tipo de experiência.
_____A seleção dos textos, mesmo atentando quase que somente aos maiores clássicos machadianos, é ótima e bem distribuída. Até nos banheiros, parte integrante das mostras temporárias do Museu da Língua, podem ser encontradas leituras condizentes (perto da porta do banheiro feminino, por exemplo, o publico pode se deliciar com o provocativo “Uns braços).

Uns braços
_____A exposição não é destinada a quem tem pressa. A graça é ir para ficar com vontade de ler Machado de Assis; e ler mesmo. Não só no impresso-guia o leitor ganha um conto para levar para casa, como, também, no final da exposição, centenas de livros estão disponíveis para que o público possa sentar e se deliciar com as obras do Mulato Sabido.
_____Como costumam ser os trabalhos do Museu da Língua, vale muito à pena visitar. Para quem for, deixo o adágio de Brás Cubas que, debochadamente, os guias da exposição expõem em suas camisetas: “A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.”.

20 Junho, 2008

Bom material para trabalho... Ótimo material para uma desgraça

_____Faz uns dias, conheci uma escola que ficava ao lado de um morro escavado de maneira muito irresponsável para dar espaço para um estacionamento. Um horror. É só aparecer uma chuvinha mais promissora para alguma bobagem acontecer. Dêem uma olhada:

Morro

_____Esse desastre eminente fica, pelo que pude notar, diariamente cercado de crianças. É quase um pedido para que alguma desgraça aconteça.

_____Entretanto, tenho de admitir, parece um prato cheio para um geógrafo. Um bom professor de Geografia usaria o morro para dar aulas. Um professor de Geografia realmente bom organizaria um interessante trabalho em conjunto com os alunos para resolver o problema. Até eu, que sou historiador, já teria dado um jeito...

05 Junho, 2008

Ex-sonhadores

_____Faz uns dez anos que ensino História. Adoro o que faço e fico contentíssimo de fazer com que meus alunos acabem gostando, também, da matéria. Em todos esses anos, já dei aula para muitos estudantes, de tudo quanto é idade. Que eu saiba, até hoje, apenas dois dos meus alunos morreram.

_____O primeiro foi um garoto da sexta série (atual sétimo ano), em 2002. Ele teve câncer, diagnosticado em meados do segundo bimestre escolar, e parou de ir para a aula até as férias do meio do ano. Após as férias, ele voltou carequinha e ia em algumas semanas e deixava de ir em outras. Quando ia, era fascinante a vontade que ele tinha de aproveitar cada momento na escola – cada vez que tinha que utilizar o caderno, pergunta que deveria responder, foto que iria ver. Ele parecia achar aquelas idas para a sala de aula a melhor coisa que existia no mundo. Perto do fim do quarto bimestre, ele teve uma nova recaída e morreu.

_____Fui ao enterro dele. Foi muito triste. Fiquei até contente que estava chovendo torrencialmente, assim eu não precisei ficar conversando com ninguém. Após enterrarem o corpo, quase no momento que eu estava indo embora, a coordenadora pedagógica do colégio me encontrou e disse que queria me apresentar a mãe do garoto.

_____– Olha, esse aqui é o Adirt, o professor de História do Fe...

_____Antes que a coordenadora pudesse concluir a frase, a mãe do garoto pulou no meu pescoço me abraçando, chorando mais do que já estava. Entre os ganidos de choro ela falou mais ou menos o seguinte: “Você não sabe o quanto você foi importante para o meu filho. Ele adorava suas aulas, sempre comentava delas em casa. Você nem imagina o quanto ele se esforçava para não faltar nos dias em que você lecionava. Obrigado. Obrigado.”.

_____Eu não sabia o que fazer. Não imaginava como reagir. Só sei que chorei quase que o caminho todo de volta para casa.

*****

_____Há uma semana, mais ou menos, eu soube da outra morte.

_____Ano passado eu lecionei em um cursinho de Guarulhos, no período noturno. Uma de minhas estudantes era uma dedicada menina chamada Vanessa. Ela ia em horários extras para assistir as minhas aulas, lia textos que eu indicava, corria atrás de filmes, peças e exposições que eu comentava, perguntava sempre dezenas de dúvidas antes das aulas. Adorava as Humanidades.

_____Teve que ralar até não poder mais. E, o melhor de tudo, conseguiu o que queria: entrou em uma universidade pública.

_____Ela manteve um leve contato virtual comigo. Foi o bastante para que eu pudesse perceber que a paixão dela pelos estudos continuou firme e forte na faculdade (ela nunca parou de pedir indicações, por exemplo). Inteligente, linda, esperta, descontraída e ótima de papo, deve ter sido uma companhia fantástica para os seus colegas de faculdade; assim como foi uma aluna que me deu muito prazer.

_____No final do mês passado, foi para a casa da família passar o feriado. Nas proximidades do Aeroporto de Guarulhos, entretanto, ela foi assassinada de maneira absurdamente brutal.

_____Eu soube da notícia por meio de uma aluna* e, desde então, venho tentando escrever um texto sobre a Vanessa. Clio sabe, nada do que escrevi me agradou até agora (nem mesmo este texto aqui), mas acho importante falar sobre ela.

*****

_____Tanto o Felipe quanto a Vanessa eram pessoas cheias de sonhos. Sei que ambos eram bem jovens, mas a verdade é que nenhum deles pareceu desistir de nenhum dos seus sonhos (pelo menos dentro da minha sala de aula). Isso eu espero ter aprendido bem com eles.

P.S.: A notícia do assassinato da Vanessa, pelo que eu vi, não saiu em nenhum jornal minimamente descente. De qualquer modo, para quem quiser saber mais sobre o assunto, ficam aqui uns links.

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* Obrigado, Patty.

01 Junho, 2008

Som, Ritmo, Movimento e o que todos os jovens em idade escolar deveriam ter direito

Crianças do Projeto Som, Ritmo e Movimento
_____Semana passada, o pessoal do Blog Content :) me convidou para participar da abertura da edição de 2008 do Projeto Som, Ritmo e Movimento. O Projeto faz parte dos programas educacionais da ONG Ação Comunitária.

_____Por mais de quatro décadas a Ação Comunitária vem fazendo um interessante trabalho de inclusão social com jovens de locais menos favorecidos economicamente da zona sul do município de São Paulo e região. Há três anos, eles começaram a investir no Projeto Som, Ritmo e Movimento que, com atividades culturais e de lazer, procura ampliar o universo cultural dos seus participantes.

_____O Projeto é destinado para jovens com idade entre 2 e 21 anos e trabalha com atividades desportivas, dança, musicalização, teatro e capoeira, além de organizar visitas monitoradas a museus, espetáculos e afins. Em suma, jovens com menos recursos acabam tendo a chance de aproveitar atividades culturais que qualquer colégio particular minimamente razoável ofereceria aos seus alunos.

_____No final de cada edição anual do Projeto, é realizada uma mostra cultural com a produção dos educadores e dos jovens participantes. Quem, assim como eu, foi para a abertura do Projeto deste ano recebeu como brinde um CD com o resultado das atividades de musicalização realizadas em 2007. O disco é bastante divertido, com um repertório semi-infantil composto principalmente por canções populares e em domínio público. Mesmo lembrando, não é um trabalho de tão alta qualidade quanto o dos CDs do Palavra Cantada, porém, de qualquer modo, não deixa de ser um ponto de trabalho bastante importante para a ampliação do conhecimento artístico dos jovens participantes.

Capa do CD do Projeto Som, Ritmo e Movimento.

_____O resultado de toda essa ação, vale dizer, é muito positivo. Os beneficiados pelo projeto têm a possibilidade de ter um contato maior com a cultura, que é bem mais do que as escolas públicas absurdamente ruins que esses jovens têm possibilidade de freqüentar costuma oferecer.

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P.S.: Quem quiser conhecer mais sobre a Ação Comunitária e seus projetos, pode acessar o site da instituição. Sendo uma ONG sem fins lucrativos, ela está constantemente em busca de auxílio para a manutenção de suas atividades. Quem quiser ajudar (empresas ou pessoas) pode entrar em contato por telefone (5843-2912) ou e-mail (info@acomunitaria.org.br).

P.P.S.: Aproveito para agradecer ao pessoal do Blog Content :) por ter me convidado para um evento tão interessante e, em especial, ao Gustavo Jreige por toda atenção e auxílio.

26 Maio, 2008

Sexo seguro e cidadania

Lixo no chão do metrô

_____Estão vendo todo esse lixo no chão de um vagão do metrô? Cruzei com ele hoje ao pegar o trem. Sabem o que era? Pacotes de papelão que continham preservativos, distribuídos gratuitamente pela prefeitura durante a XII Parada GLBT.

_____Todos estavam devidamente vazios. Mesmo assim, são pacotes bem interessantes. A parte externa expõe um misto do símbolo da Parada Gay com o da campanha contra o HIV e as palavras “Prevenção e Cidadania”. A interna dá informações sobre os serviços municipais especializados em doenças sexualmente transmissíveis e detalhes mais específicos sobre como contrair e como evitar a AIDS. Todas as informações podem ser encontradas no site www.dstaids.prefeitura.sp.gov.br.

Prevenção e Cidadania

_____Gostei muito do envelope das camisinhas. Acho, vale dizer, bastante importante que ele contenha tantas informações sobre DSTs. Só espero que eles façam uma modificação para o ano que vem. Creio que, na própria capa, perto do local em que está escrito “Prevenção e Cidadania”, seria importante colocar um glossário explicando o que “cidadania” significa. É bom, inclusive, deixar claro que a palavra não combina muito com jogar lixo no chão.

P.S.: Para quem se interessou pelo tema, talvez este meu texto antigo interesse um pouco.

14 Maio, 2008

Não quero ser amado

_____Fui a um local de adoção de animais no final de semana e cruzei com o seguinte cartaz:

Castração - Um ato de amor

_____Tudo bem, eu entendo. Ao castrar seu animal você evita que ele tenha inúmeros problemas. Mas, convenhamos, o título “Castração – Um ato de amor” passa um pouco do ponto, não?

P.S.: Tirando a piada pronta acima, as campanhas de adoção de animais são bem interessantes. Realmente, adotar um animal é uma opção bem melhor do que comprar um.

Adoção de animais

27 Abril, 2008

Estátua mais do que viva

_____Estou um tanto cansado, pois acabei de participar, quase que direto, de vários eventos da Virada Cultural. Foi uma delícia, acabei me divertindo até não poder mais.

_____Quando cheguei em casa, porém, ao conversar com a minha família sobre o que eu havia visto e gostado, fiquei intrigado com o resultado. Mesmo tendo visto parte de um workshop de culinária judaica, apreciado a feitura de um HQ ao vivo, escutado alguns shows de rock e de blues (além do show folk da Mallu Magalhães), visto algumas apresentações teatrais, participado de uma roda de samba, assistido uma apresentação de piano, ido para algumas exposições e um monte de outras atividades, o que mais gostei neste ano foi de uma estátua viva.

_____Sempre vejo pela Paulista artistas de rua tentando ganhar uns trocados como estátuas vivas e raramente gosto. Entretanto, dessa vez, eu fiquei um tempão olhando o artista, o cara era absurdamente bom. A movimentação dele na hora de agradecer as moedas era hipnotizante de tão bem feita. Sem contar a maquiagem. Fiquei tão atônito com o cara que até me esqueci de tirar uma foto para mostrar para vocês.

_____O mais interessante, é que essa estátua viva foi o único trabalho artístico que não estava ligado à Virada que eu presenciei neste final de semana e, no fim das contas, foi o que eu mais gostei. Deveria ter anotado o contato do cara.

23 Abril, 2008

Contra o analfabetismo? Mesmo?

_____Grande parte dos blogs que leio, acabo lendo por meio do Google Reader, meu leitor de feeds. Mesmo sendo fácil e cômodo, tem o problema de fazer com que eu deixe acumular algumas leituras e acabe lendo muitos textos com certo atraso.

_____Acabei de ler, por exemplo, um texto interessante do Allan, do blog Carta da Itália, sobre a campanha “A blogosfera brasileira contra o analfabetismo” que acabou me dando um novo assunto para tratar com vocês. Mesmo sabendo que os textos contra o analfabetismo deveriam, para participar da campanha, ter sido publicados no dia 18, creio que tenho um texto interessante que vale ser revisitado por conta dessa discussão. É o “NoCu da professora”, publicado aqui no Incautos em novembro do ano passado.









_____Escrevi o “NoCu da professora” por ter encontrado um texto absurdamente mal escrito que uma professora de História de uma escola pública paulistana passou para os seus alunos. Sinceramente, se querem fazer uma campanha contra o analfabetismo, eu aconselho que, caso a “blogagem coletiva” sobre o tema se repita no próximo ano, não adotem como tema simplesmente “blogagem coletiva contra o analfabetismo” e, sim, “blogagem coletiva contra o analfabetismo dos professores”.

_____Tentar combater o analfabetismo sem pessoas realmente preparadas para isso é um pouco difícil. Como disse o Allan, o MOBRAL, um dos programas brasileiros de alfabetização, “ensinava” as pessoas “a ler e escrever, mas poucos alunos saíam de lá com capacidade de compreender e interpretar textos de uso cotidiano. Produzir um texto escrito, então, nem se fala.”. E, como bem lembrou o Doni, do Hedonismos, a pressão da sociedade para que algo melhore é muito importante.

_____Uma sociedade que não se importa com professores semi-analfabetos “ensinando” tem graves problemas. Para não citar apenas o meu texto como exemplo, pergunto: vocês nunca cruzaram com um blog de um professor que escrevia excessivamente mal? Quando encontraram esse blog, fizeram algum comentário público? Enviaram, pelo menos, algum e-mail para o “professor” semi-analfabeto autor do blog? Ignorar o problema, com certeza não ajudou a resolvê-lo.


P.S.: Já que a “blogagem contra o analfabetismo” foi feita no dia 18, dia nacional do livro infantil, aproveito para contar que, por coincidência, tive a sorte de publicar este texto aqui no blog hoje, dia 23/IV, dia mundial do livro.

P.P.S.: Diga-se de passagem, no dia do livro existe um costume em parte da Espanha que eu achei uma graça. As mulheres dão um livro de presente para os homens e recebem, como retribuição, uma rosa. Lindo, não?

11 Março, 2008

Sempre que chove...

A água e a sala de aula
_____Estão vendo a foto desse lugar com água empoçada? Se vocês olharem com mais atenção, vão descobrir que é uma sala de aula. Horrível, né? Triste, não?

_____Tudo bem, já vi salas piores, mas isso não é justificativa para nada. E não faz com que essa cena deixe ser triste.

P.S.: Sim, os extintores do canto estão vencidos.

09 Março, 2008

Raízes medievais do Romance d'A Pedra do Reino

_____Li o Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, de Ariano Suassuna, pensando em participar do clube de leituras do blog O Biscoito Fino e a Massa, de Idelber Avelar, no dia 18 de fevereiro. Porém, por mais que eu tivesse gostado da obra, não achei que eu tivesse algo de muito interessante para falar e, portanto, limitei-me a ler e a acompanhar o debate. No meio das discussões que aconteceram no Biscoito, entretanto, acabei fazendo novas reflexões e percebi alguns elementos interessantes que não haviam entrado no meu rol inicial de idéias durante a minha leitura do livro. Fiz umas leituras extras e hoje, mesmo estando mais atrasado do que padre que aparece em velório para batizar o morto, aproveito para publicar, aqui, algumas das minhas reflexões sobre a obra.

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Romance d'A Pedra do Reino

_____Em uma tentativa de pontuar mudanças e se afirmar no tempo, os pensadores da Idade Moderna (1453-1789) rejeitaram o período anterior, a Idade Média (476-1453), e acabaram por construir uma imagem fortemente negativa da época. Não é à toa que, até hoje, a mais famosa alcunha para o período medieval é “Idade das Trevas”. O século XIX, por sua vez, retomou a medievália de maneira romântica, pintou o período como uma época áurea, admirável, com valores que, há muito, não existiam.

_____Por mais que muitas vezes seja difícil saber se o que está sendo falado no Romance d’A Pedra do Reino é sério, é bem fácil perceber que Suassuna segue a tradição do século XIX de louvar a Idade Média. Essa visão de um período medieval resplandecente é, sem dúvida, consciente na maior parte do livro. Tanto que existem referências e mais referências sobre Carlos Magno e seus pares de França, comparações com cavaleiros da Idade Média, doutrinas milenaristas, louvor à “nobreza”, rejeição ao que não é “aristocrático”, etc..

_____O que pretendo demonstrar com este pequeno texto é que muitos dos elementos que figuram no Romance d’A Pedra do Reino têm raízes medievais muito arraigadas no imaginário coletivo brasileiro e não poderiam, mesmo se Suassuna quisesse, deixar de aparecer na obra.

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_____Região bastante pobre do território, com fortes traços arcaizantes, o nordeste brasileiro (inclusive o “Brasil verdadeiro” de Suassuna – que se localiza entre a Paraíba, Pernambuco e Alagoas), guardou, com muita força, características medievais que, aos poucos, iam desaparecendo no mundo industrializado. O sucesso das cantigas de cordel e das histórias medievais, principalmente no sertão, não são mera coincidência.

_____Como bem fala Hilário Franco Júnior, no seu livro Cocanha: a história de um país imaginário, “A literatura de cordel preserva valores abandonados pela sociedade global, procedendo assim ‘a um processo de crítica a esta sociedade, mesmo sem o pretender conscientemente’(PIRES FERREIRA, p. 13). Tal arcaísmo gira em torno de dois grandes eixos, o do valente e o do santo, cangaceiros e líderes messiânicos, pois como Eric Hobsbawm notou, banditismo e milenarismo historicamente caminham juntos.” (p. 221). Assim como a literatura medieval associava cavaleiros e clérigos, o cordel nordestino associa cangaceiros e homens santos. O livro de Suassuna, simulacro de um grande cordel, não foge dessa tradição.

_____A louca e constante justificação de Quaderna, personagem-narrador do Romance, pouco foge de um grande louvor à valentia cavaleiresca e ao messianismo. Também é o caso da superstição, muito presente nas personagens da obra. O nordeste brasileiro é, ainda hoje, muito supersticioso e o era mais ainda na primeira metade do século XX – tal qual era absurdamente supersticiosa a Idade Média européia.

_____Quando os leitores e alunos do Idelber falam que a obra é reacionária, que Quaderna procura instaurar um reino e não acabar com a desigualdade, isso nada mais é do que parte de uma tradição medieval que valoriza a nobreza em detrimento do povo. O povo nada mais faz do que ter sua função de povo (plantar, servir e permitir a boa vida da aristocracia que os “protege”).

_____Medieval também é a reducionista visão de popular que tem Suassuna. Popular parece ser apenas aquilo que tem uma forte tradição local, um constante fugir do outro, não relacionar-se com os de fora, um viver enfeudado. Diga-se de passagem, o nordeste brasileiro da primeira metade do século XX tinha relações exíguas com o resto do país, na região o poder central era fraco. Esse poder central pífio, característico do feudalismo, acabou sendo uma das bases da sociedade coronelista nordestina.

_____É exatamente um poder central fraco que permite a existência, só para exemplificar, dos vários impérios e das pretensões de Quaderna no Romance d’A Pedra do Reino. Esses reinos acabavam por existir graças ao fraco controle de um poder central. Diga-se de passagem, o Quarto Império, herdeiro direto do Terceiro Império, o do massacre, por exemplo, acabou pela força de senhores locais, não do governo. Fazendeiros armados (uma elite forte e armada com seus jagunços) nada mais são do que uma subversão dos senhores feudais, da nobreza medieval – nobreza que, vale lembrar, lutava, que era guerreira por excelência.

_____Para terminar, é bom tomar cuidado ao analisar a obra e procurar nela (ou na época em que se passa o romance ou no momento em que ele foi escrito) raízes medievais, pois certas simplificações de análise podem facilmente terminar na boca do leitor. Por exemplo, o machismo da obra, também tão criticado pelos comentaristas do Biscoito, não é necessariamente uma característica medieval. Ele pode ter sido forte na Idade Média, mas ele é quase atemporal se a história da humanidade for vista com cuidado.

_____Vale ressaltar que criticar o machismo da obra é um pouco problemático. A ação principal acaba acontecendo na década de 1930, no nordeste brasileiro, local e época absurdamente machistas. O machismo de Quaderna nada mais é do que algo de verossímil na personagem. Esse machismo é característica de um homem nordestino da primeira metade do século XX. Fazer uma personagem desse local e época não sendo machista seria motivo para mil outras análises, talvez para outro romance. Assim como muitas das características medievais do Romance d’A Pedra do Reino são verossímeis para o nordeste brasileiro, por mais tresloucado que pareça o romance algumas vezes. Se essas características não existissem na obra é que mais ainda teria para se estranhar.

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_____Para ajudar os leitores interessados no que foi citado, darei as referências bibliográficas:

- FRANCO JR., H.. Cocanha, a história de um país imaginário. São Paulo,Companhia das Letras, 1998.

- HOBSBAWM, E.. Bandidos. Rio, Forence, 1975.

- PIRES FERREIRA, J.. Cavalaria em cordel. São Paulo, Hucitec, 1979.

_____Meu Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta é de 2007, da José Olympio Editora.

_____Além dessas obras, foi essencial para este texto um ensaio de Hilário Franco Júnior chamado “Raízes Medievais do Brasil”, publicado em 1998 pela Universidade Federal do Pará.

17 Fevereiro, 2008

Mudanças de horário

_____Que dia lindo!

_____Tenho um amigo que adora o horário de verão porque ganha uma hora a mais de luz por dia. Eu, pessoalmente, adoro a mudança do horário normal para o de verão, tanto quanto adoro a mudança do horário de verão para o horário normal (o caso de hoje).

_____É maravilhoso! De um dia para o outro, as imagens do meu dia-a-dia mudam. Eu acordo no domingo (já que o horário muda de sábado para domingo) em uma hora completamente diferente. E, segunda-feira, quando eu for trabalhar cedo, todo o cenário do mundo será diferente do que era na semana passada. Quando eu for trabalhar na academia de dança à noite, verei um céu que não via. É como se um pintor tivesse pintado com cores diferentes o fundo de um quadro que eu vejo todo dia.

_____A mudança de horários é fantástica!

P.S.: Aproveitando a deixa: para quem não sabe, estudei História na USP, no período noturno. O prédio do Departamento de História é super estranho e, por um capricho arquitetônico do autor do prédio, não tem a parede do fundo, só a da frente. O que há de mais fantástico é que o fundo do prédio é voltado para oeste e, portanto, durante toda a minha graduação eu, estudante do noturno, pude ver o sol se por. Todos os dias. Quando mudava de horário, então, eu via o sol em outro ponto. Todo mundo deveria estudar em um lugar assim.

12 Fevereiro, 2008

Truque para lecionar

_____Não sou muito afecto a ensinar truques para se lecionar. Para falar a verdade, vejo com grande desconfiança revistas para professores (como a Nova Escola) que parecem um depositório de receitinhas para se dar boas aulas. Entretanto, uma coisa interessante me aconteceu ontem, dia do meu aniversário, e eu preciso testá-la nos próximos anos.

_____Por mais que eu lecione há 10 anos, nunca havia coincidido o dia de uma aula minha com o dia do meu aniversário. Empolgado com esse fato, anunciei que era meu aniversário em toda sala em que entrei. Fiquei impressionado com o resultado. Pode ser que o interesse da classe se deu pelo meu modo atípico de lecionar e por ainda serem os primeiros dias de aula, mas tive a impressão de que eles estavam interessados, principalmente as salas com alunos mais novinhos, em ver aquele professor que estava dando aula no dia do seu aniversário.

_____Queira ou não, adoro as reações atípicas dos alunos.

29 Janeiro, 2008

Uma espera longa e um dia improdutivo

_____Muitas pessoas não gostam de trabalhar. Muitas vezes elas parecem não agüentar de vontade de que o final do expediente chegue para poderem ir para casa. Se esse desgosto pelo trabalho estiver na definição da palavra trabalho, posso dizer que raramente trabalhei em minha vida. Adoro meus trabalhos e, na maioria das vezes, vou feliz e contente para o serviço.

_____Gosto muito de dançar, acabo sempre me divertindo quando escrevo, mas nenhum dos meus trabalhos é tão gostoso para mim quanto lecionar História. Ensinar História me diverte mais do que grande parte das minhas atividades praticadas nas horas de lazer. Já lecionei em cursinhos, supletivos, faculdades, porém são os colégios a minha verdadeira paixão. Meu problema é que o colégio que eu mais gostava de lecionar passou por uma troca de donos em meados de 2006 e acabou falindo bem no final do ano (depois do natal).

_____Fui pego completamente de surpresa e, então, mandando currículos de última hora, só encontrei para o ano seguinte um colégio desorganizado, cheio de problemas, desonesto, que, literalmente, engana os alunos e no qual eu tinha de fazer um esforço hercúleo para conseguir uma condição mínima para dar um bom curso. 2007, no fim das contas, não foi um bom ano neste ponto. Para alguém como eu que tem a sala de aula como um dos lugares preferidos para se ficar, isso incomodou muito.

_____Querendo encontrar um bom lugar para lecionar em 2008, desde outubro de 2007 comecei a enviar currículos para colégios. Mandei um monte, mas não obtive nenhuma boa resposta. O tempo ia passando e a chance de conseguir algo (já que as aulas começam em fevereiro) foi diminuindo – o que, obviamente, começou a me entristecer. Até a semana passada.

_____Semana passada, então, um bom colégio me ligou e marcou uma entrevista comigo para segunda-feira (ontem). Fiz a entrevista. A entrevistadora disse, então, que havia gostado bastante da entrevista, mas que tinha mais uns dez candidatos para entrevistar. Disse que no dia seguinte (hoje) ligaria para dar a resposta.

_____Cheio de esperança, passei o dia em casa. Foi um verdadeiro inferno. Cada vez que tocava o telefone, eu corria até ele. Como nenhuma das ligações era a resposta do colégio, fui desanimando com o passar do dia. A inquieta espera e o crescente desânimo fez com que o dia fosse longo e extremamente improdutivo. Não fui capaz de ler nenhum dos livros que estou lendo no momento, não importa se eram os difíceis ou os fáceis. Tentei trabalhar em alguns dos meus textos, mas nenhum deles caminhava. Minha cabeça, o tempo todo, estava em outro lugar.

_____Agora, perto da meia-noite, depois de já ter ido trabalhar na academia de dança, com a certeza de que não consegui o emprego que eu queria, está sendo possível produzir algo, mesmo que esse algo seja um texto amargo. Espero que tenha saído um texto de leitura agradável. Espero, também, que este ano, sem poder fazer direito o que eu tanto gosto, não seja tão desagradável quando este dia.

22 Janeiro, 2008

Evitando a humilhação alheia

Bobby Fischer

_____Há alguns anos, fui todo contente para a faculdade para assistir uma palestra de uma pesquisadora renomada, que estava aposentada fazia muito tempo. Eu já havia lido livros dela e sabia o quanto ela era talentosa. Fui empolgadíssimo para o evento. A palestra, entretanto, foi um fiasco. Para falar a verdade, foi uma humilhação pública. A palestrante até que começou bem, mas, pouco depois do início da sua fala, ela entrou em um devaneio louco e não parou mais. Perto do fim, depois que um monte de gente já havia se retirado da sala, ela começou a perguntar pelo seu gato com voz de choro. Fiquei até o fim e foi horrível. Morri de dó dela (por isso mesmo, prefiro, respeitosamente, ocultar seu nome).

_____Até hoje, não sei se os professores que convidaram a senhora para dar palestra estavam cientes, mas ela sofria de Alzheimer. Se os organizadores não estavam cientes, os responsáveis pela senhora é que deveriam ter impedido que ela aceitasse o convite. Prefiro guardar as lembranças que tenho dos ótimos momentos que tive ao ler os livros dela do que daquela palestra.

_____Semana passada, Bobby Fischer, um dos mais exemplares enxadristas do mundo, morreu.

_____Sinceramente, se eu acreditasse em inferno, torceria para que ele fosse para lá e tivesse de passar o resto da eternidade jogando damas. Ele não foi um ser humano admirável, foi escroto. Fischer tinha as mais tresloucadas opiniões, muitas vezes ambíguas e sempre mal argumentadas. Era mal-educado, preconceituoso, machista, anti-semita e um monte de outras coisas que nem vale à pena citar.

_____Já conversei com o Edney Souza, do InterNey.net, algumas vezes e, apesar da minha timidez na frente de pessoas que pouco conheço, foi bem legal. É um cara inteligente, simpático, que fala coisas interessantes. É alguém que, sem problema nenhum, eu convidaria para tomar algo e conversar; alguém que eu indicaria, caso pedissem ajuda com informática. Porém, obviamente, eu não o chamaria para dançar na academia de dança em que trabalho. Não quero que riam dele, prefiro não convidá-lo. Creio, também, que ele tem noção o bastante para evitar um programa desse tipo.


_____Deixar o Bobby Fischer falar em público era quase tão horrível quanto deixar o Edney dançar. Fischer era um boçal. Tirando suas partidas de xadrez, existe pouca coisa na vida dele digna de um mínimo de admiração. Tal qual a palestrante do início deste texto, não deveriam ter deixado ele se humilhar como ele freqüentemente fazia quando falava em público.

_____Sinceramente, acho que o ser humano nada admirável que Fischer era não deve ser esquecido. Entretanto, prefiro me lembrar dele pelas suas partidas, que muito estudei e admirei quando treinava xadrez.

P.S.: Muitos dos jogos do Bobby Fischer podem ser admirados no ótimo site ChessGames.com. Aconselho, principalmente, as partidas contra Boris Spassky no campeonato mundial de 1972.


14 Janeiro, 2008

Auto-ajuda para conseguir emprego

_____Hoje de manhã fui para uma entrevista de emprego. Ao chegar lá, acabei me deparando com mais de trinta professores de História que lá estavam com o mesmo objetivo que eu. Todos os que chegavam eram enviados uma sala recheada de mesas e cadeiras e ficavam por lá olhando um para o outro como se fossem inimigos. Fiquei mais de uma hora aguardando, o que, para falar a verdade, não foi nenhum suplício (fiquei lendo os dois livros que eu carregava na mala quase o tempo todo).

_____Ao terminar um capítulo do livro O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média, abaixei-me para pegar minha edição do Diário de Anne Frank. Percebi, então, que uma das candidatas que estava sentada na mesma mesa que eu estava lendo O Segredo, de Rhonda Byrne. Consegui até tirar uma foto.

Professores e suas leituras

_____Quando eu ia rir sozinho da leitura da moça, olhei para o lado e vi que existiam coisas bem mais bizarras. Na mesa ao lado, um cara lia um livro sobre como fazer amigos, enquanto a infeliz ao lado lia Lidere como Jesus, de Ken Blanchard. Será que é um manual ensinando como se faz para tentar convencer algumas pessoas e acabar sendo crucificado no fim da história?

_____Creio que um daqueles livrinhos bonitinhos da “Coleção Tudo é História”, da Brasiliense, fariam mais bonito. Até uma revista semanal valeria mais a pena. Porém, os caras tinham de estar lendo auto-ajuda? Em uma sala de entrevista de emprego?

_____Eu estava ainda um tanto boquiaberto com a bobeira alheia quando o campeão do dia entrou. Um cara passou na minha frente segurando um livro intitulado Como Trabalhar para um Idiota – Aprenda a Evitar Conflitos com seu Chefe, de John Hoover*. Será que o autor não fala na introdução que o primeiro passo é nunca levar um livro com um título assim para um local de trabalho? Será possível que alguém vá para uma entrevista de emprego com um livro desses na mão? O cara não se toca?

_____Pouco depois do meu assombro, chamaram todos os candidatos de uma vez para atividades de avaliação. Sinceramente, eu não deveria ter ficado espantado ao ver as leituras dos outros professores como prévia, pois as atividades que as pessoas do RH fizeram para avaliar quem deveria ser contratado se encaixavam bastante bem com livros de auto-ajuda em geral.

_____Estou começando a achar que sei o motivo para não ser muito querido entre os outros professores.



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* Talvez o teste seja o livro: se você consegue terminar uma porcaria dessas, você é capaz de agüentar qualquer chefe.

07 Janeiro, 2008

Provas com blogs (parte V)

_____Quem acompanha o Incautos do ontem desde meados do ano passado, sabe que mantenho uma pequena série de postagens sobre questões de provas que faço com textos de blogs. As postagens anteriores estão nos seguintes links: introdução, parte I, parte II, parte III e