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20 Julho, 2008

Castigo divino

Hipnos e Tânatos carregam o corpo de Sarpédon

_____Os deuses pedem sacrifícios a todos os mortais. Se não respeitamos esses sacrifícios, os deuses nos castigam. Hipnos, o deus do sono, pede que eu sacrifique a ele algo que é muito precioso para mim: o meu tempo. Hipnos quer que eu utilize muitas horas da minha vida para dormir.

_____O problema é que eu o desrespeitei. Não sacrifiquei a Hipnos todo o tempo que ele gostaria. Como castigo pela minha falta de horas dormindo nas últimas semanas, ele tomou minha saúde.

_____Estou doente já faz uns dias, com uma imensa dor de garganta. Comer é necessário caso eu queira apaziguar a fúria do deus. O castigo dele, vale dizer, é bastante cruel, pois não só eu tenho de comer apesar da dor de garganta, como, também, acabo não sentindo o gosto de nada.

_____Fiz a burrada de contar para minha namorada o estado atual do meu paladar. Ela, então, disse: “Já que você não sente o gosto de nada, acho que é um bom momento para fazer você comer as saladas que você tanto despreza.”.

_____Tenho certeza que Hipnos está rindo até agora.

08 Julho, 2008

A infância do Padre dos Balões

_____Quem se interessa pelo padre Adelir de Carli, o Padre dos Balões, e não quer apenas ficar acompanhando notícias sobre o que talvez sejam os seus restos mortais, agora tem um trunfo. Um filme de 1956, sobre a infância do religioso, acaba de ser restaurado e está em cartaz em algumas salas do país. Quem se interessou é só procurar O balão vermelho, de Albert Lamorisse.

*****

P.S.: Mesmo sendo apenas um chiste, não é possível acompanhar o interessante filme de Lamorisse sem se lembrar do Padre Voador. De qualquer modo, brincadeiras à parte, não deixem de ver.

20 Junho, 2008

Bom material para trabalho... Ótimo material para uma desgraça

_____Faz uns dias, conheci uma escola que ficava ao lado de um morro escavado de maneira muito irresponsável para dar espaço para um estacionamento. Um horror. É só aparecer uma chuvinha mais promissora para alguma bobagem acontecer. Dêem uma olhada:

Morro

_____Esse desastre eminente fica, pelo que pude notar, diariamente cercado de crianças. É quase um pedido para que alguma desgraça aconteça.

_____Entretanto, tenho de admitir, parece um prato cheio para um geógrafo. Um bom professor de Geografia usaria o morro para dar aulas. Um professor de Geografia realmente bom organizaria um interessante trabalho em conjunto com os alunos para resolver o problema. Até eu, que sou historiador, já teria dado um jeito...

18 Junho, 2008

Saldo positivo

_____Há exatos cem anos, o Kasato Maru, primeiro navio trazendo imigrantes japoneses para o Brasil, atracava no porto de Santos. Mais de dois anos foram necessários até a chegada de um segundo navio (o Ryojun Maru). Depois, aos poucos, mais e mais imigrantes nipônicos vieram para cá. Entre eles, os pais da minha sogra.

_____Por conta disso, tenho de passar por situações como a da crônica publicada aqui no dia 25 de abril (crônica que, principalmente por causa da data de hoje, vale ser revisitada). Mas, também, é por conta desses imigrantes que namoro uma menina tão maravilhosa quanto a minha bela e interessante namorada.

_____Pelos meus cálculos, o saldo foi bem positivo. ;-)

05 Junho, 2008

Ex-sonhadores

_____Faz uns dez anos que ensino História. Adoro o que faço e fico contentíssimo de fazer com que meus alunos acabem gostando, também, da matéria. Em todos esses anos, já dei aula para muitos estudantes, de tudo quanto é idade. Que eu saiba, até hoje, apenas dois dos meus alunos morreram.

_____O primeiro foi um garoto da sexta série (atual sétimo ano), em 2002. Ele teve câncer, diagnosticado em meados do segundo bimestre escolar, e parou de ir para a aula até as férias do meio do ano. Após as férias, ele voltou carequinha e ia em algumas semanas e deixava de ir em outras. Quando ia, era fascinante a vontade que ele tinha de aproveitar cada momento na escola – cada vez que tinha que utilizar o caderno, pergunta que deveria responder, foto que iria ver. Ele parecia achar aquelas idas para a sala de aula a melhor coisa que existia no mundo. Perto do fim do quarto bimestre, ele teve uma nova recaída e morreu.

_____Fui ao enterro dele. Foi muito triste. Fiquei até contente que estava chovendo torrencialmente, assim eu não precisei ficar conversando com ninguém. Após enterrarem o corpo, quase no momento que eu estava indo embora, a coordenadora pedagógica do colégio me encontrou e disse que queria me apresentar a mãe do garoto.

_____– Olha, esse aqui é o Adirt, o professor de História do Fe...

_____Antes que a coordenadora pudesse concluir a frase, a mãe do garoto pulou no meu pescoço me abraçando, chorando mais do que já estava. Entre os ganidos de choro ela falou mais ou menos o seguinte: “Você não sabe o quanto você foi importante para o meu filho. Ele adorava suas aulas, sempre comentava delas em casa. Você nem imagina o quanto ele se esforçava para não faltar nos dias em que você lecionava. Obrigado. Obrigado.”.

_____Eu não sabia o que fazer. Não imaginava como reagir. Só sei que chorei quase que o caminho todo de volta para casa.

*****

_____Há uma semana, mais ou menos, eu soube da outra morte.

_____Ano passado eu lecionei em um cursinho de Guarulhos, no período noturno. Uma de minhas estudantes era uma dedicada menina chamada Vanessa. Ela ia em horários extras para assistir as minhas aulas, lia textos que eu indicava, corria atrás de filmes, peças e exposições que eu comentava, perguntava sempre dezenas de dúvidas antes das aulas. Adorava as Humanidades.

_____Teve que ralar até não poder mais. E, o melhor de tudo, conseguiu o que queria: entrou em uma universidade pública.

_____Ela manteve um leve contato virtual comigo. Foi o bastante para que eu pudesse perceber que a paixão dela pelos estudos continuou firme e forte na faculdade (ela nunca parou de pedir indicações, por exemplo). Inteligente, linda, esperta, descontraída e ótima de papo, deve ter sido uma companhia fantástica para os seus colegas de faculdade; assim como foi uma aluna que me deu muito prazer.

_____No final do mês passado, foi para a casa da família passar o feriado. Nas proximidades do Aeroporto de Guarulhos, entretanto, ela foi assassinada de maneira absurdamente brutal.

_____Eu soube da notícia por meio de uma aluna* e, desde então, venho tentando escrever um texto sobre a Vanessa. Clio sabe, nada do que escrevi me agradou até agora (nem mesmo este texto aqui), mas acho importante falar sobre ela.

*****

_____Tanto o Felipe quanto a Vanessa eram pessoas cheias de sonhos. Sei que ambos eram bem jovens, mas a verdade é que nenhum deles pareceu desistir de nenhum dos seus sonhos (pelo menos dentro da minha sala de aula). Isso eu espero ter aprendido bem com eles.

P.S.: A notícia do assassinato da Vanessa, pelo que eu vi, não saiu em nenhum jornal minimamente descente. De qualquer modo, para quem quiser saber mais sobre o assunto, ficam aqui uns links.

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* Obrigado, Patty.

30 Maio, 2008

A culpa não é minha

“Assim como a Monsanto e seu Agente Laranja despejado no Vietnã ou como a Lockheed-Martin, pilar industrial da invasão do Iraque e financeiro do governo Bush, a indústria automobilística lavaria suas mãos e diria: ‘Não temos nada a ver com isso. Apenas fabricamos veículos que andam a 180km/h e fazemos propagandas estimulando o individualismo e a velocidade, mas não nos responsabilizamos pelo excesso de velocidade ou pelo individualismo de motoristas que agridem, matam ou desrespeitam outras pessoas pilotando nossos produtos’.”. (Trecho do texto “Efeito colateral ou conseqüência natural?”, do excelente blog apocalipse motorizado).

_____É necessário dizer mais alguma coisa? Creio que não. Mas, com certeza, é necessário que isso seja dito com mais freqüência.

22 Maio, 2008

As origens do mal-humor de House

Senhor Frederick Little
_____Dia desses eu estava assistindo O homem da máscara de ferro, de Randall Wallace, e, em um determinado momento, achei que um dos conselheiros do Leonardo DiCaprio rei Luis XIV era o Hugh Laurie, o ator que interpreta o House. Como não passaram os letreiros completos, depois do filme, fui conferir a biografia de Laurie para ver se ele havia mesmo trabalhado no filme.

_____Fiquei surpreso ao descobrir que, antes de fazer sucesso como House, Laurie não só havia sido conselheiro do rei, em O homem da máscara de ferro, como, também, havia feito muitos outros papéis menores. Até aí, tudo normal – pode dizer algum leitor –, esse costuma ser o caminho de quase todos os atores que não fazem teste do sofá. Porém, as coisas não são bem assim. O pobre do House Hugh Laurie fez um monte de papéis pequenos que, com certeza, esgotariam a paciência de qualquer ator.


_____Laurie foi o pai adotivo do ratinho Stuart Little, bandido em 101 Dálmatas e, até, trabalhou no Spice World, o filme das Spice Girls. Sem contar que, nO homem da máscara de ferro, a última participação dele no filme foi quando o Luis XIV condenou ele à morte. Não é à toa que ele virou um médico mal-humorado.


P.S.: Encontrei um vídeo que, teoricamente, fez parte da audição que Hugh Laurie fez para ser escolhido para atuar em House M.D.. Prestem atenção na cara de “acordei atrasado para o teste” que o coitado está.


P.P.S.: Quem gosta de House, talvez se divirta com o “Gerador automático de episódios de House”, do blog 7 regras básicas.

P.P.P.S.: E, quem gosta de ver o Hugh Laurie fazendo papel de mal-humorado, talvez se divirta vendo essa participação dele em Friends.


06 Maio, 2008

O fim justificado da civilização asteca

_____Não precisei ler As veias abertas da América Latina para me revoltar com o absurdo que os espanhóis fizeram com as civilizações pré-colombianas da América. Claro que o interessante livro de Eduardo Galeano fez com que eu me revoltasse ainda mais, porém, desde que tenho o mais básico conhecimento de História, eu já sentia uma grande sensação de revolta pelo desleal massacre. Mesmo depois que me tornei historiador e conheci muito mais sobre o tema, pouco de minha opinião sobre o extermínio dos povos pré-colombianos mudou. Até ontem.

_____Ontem, entrei na cozinha e vi, em cima da mesa, uma garrafa de Groselha Asteca. Sedento por lembrar do delicioso gosto da bebida, coloquei um tanto em um pequeno copo e entornei o líquido garganta abaixo. Por Clio, que horror! Aquilo queimou minha garganta; era ruim que até doía. Tão doce que foi por muito pouco que não me tornei diabético instantaneamente. Praguejei conta a groselha. Cheguei mesmo a dizer que, se os astecas haviam servido aquela bebida para o Cortez, que o massacre estava justificado.

Groselha Asteca

_____Minha namorada, vendo minhas injúrias, perguntou o que havia acontecido. Expliquei para ela o ocorrido. Ela, entre gargalhadas, explicou para o ignorante do namorado dela, que eu deveria misturar o líquido da garrafa com água para que aquele “veneno mexica” virasse mesmo groselha (estava nas letrinhas miúdas da garrafa).

_____Sentindo-me, pela segunda vez na mesma semana, o ser mais estúpido do mundo, segui a receita dela e, admito, a bebida ficou muito gostosa. Diga-se de passagem, minha namorada também me ensinou a colocar umas gotinhas de limão no líqüido fica ainda melhor (se eu já conhecesse esse truque quando criança, teria gostado mais ainda de groselha).

_____O melhor desta história toda é que continuo achando o massacre espanhol um absurdo e não vou mudar mais de opinião nem se me servirem xocoatl*.

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* Bebida mexica, derivada do cacau, de gosto muito amargo.


23 Abril, 2008

Contra o analfabetismo? Mesmo?

_____Grande parte dos blogs que leio, acabo lendo por meio do Google Reader, meu leitor de feeds. Mesmo sendo fácil e cômodo, tem o problema de fazer com que eu deixe acumular algumas leituras e acabe lendo muitos textos com certo atraso.

_____Acabei de ler, por exemplo, um texto interessante do Allan, do blog Carta da Itália, sobre a campanha “A blogosfera brasileira contra o analfabetismo” que acabou me dando um novo assunto para tratar com vocês. Mesmo sabendo que os textos contra o analfabetismo deveriam, para participar da campanha, ter sido publicados no dia 18, creio que tenho um texto interessante que vale ser revisitado por conta dessa discussão. É o “NoCu da professora”, publicado aqui no Incautos em novembro do ano passado.









_____Escrevi o “NoCu da professora” por ter encontrado um texto absurdamente mal escrito que uma professora de História de uma escola pública paulistana passou para os seus alunos. Sinceramente, se querem fazer uma campanha contra o analfabetismo, eu aconselho que, caso a “blogagem coletiva” sobre o tema se repita no próximo ano, não adotem como tema simplesmente “blogagem coletiva contra o analfabetismo” e, sim, “blogagem coletiva contra o analfabetismo dos professores”.

_____Tentar combater o analfabetismo sem pessoas realmente preparadas para isso é um pouco difícil. Como disse o Allan, o MOBRAL, um dos programas brasileiros de alfabetização, “ensinava” as pessoas “a ler e escrever, mas poucos alunos saíam de lá com capacidade de compreender e interpretar textos de uso cotidiano. Produzir um texto escrito, então, nem se fala.”. E, como bem lembrou o Doni, do Hedonismos, a pressão da sociedade para que algo melhore é muito importante.

_____Uma sociedade que não se importa com professores semi-analfabetos “ensinando” tem graves problemas. Para não citar apenas o meu texto como exemplo, pergunto: vocês nunca cruzaram com um blog de um professor que escrevia excessivamente mal? Quando encontraram esse blog, fizeram algum comentário público? Enviaram, pelo menos, algum e-mail para o “professor” semi-analfabeto autor do blog? Ignorar o problema, com certeza não ajudou a resolvê-lo.


P.S.: Já que a “blogagem contra o analfabetismo” foi feita no dia 18, dia nacional do livro infantil, aproveito para contar que, por coincidência, tive a sorte de publicar este texto aqui no blog hoje, dia 23/IV, dia mundial do livro.

P.P.S.: Diga-se de passagem, no dia do livro existe um costume em parte da Espanha que eu achei uma graça. As mulheres dão um livro de presente para os homens e recebem, como retribuição, uma rosa. Lindo, não?

05 Abril, 2008

Coincidência

Rosa

_____Faz muito tempo que acompanho os textos do Alex Castro, do Liberal, Libertário, Libertino, e sempre me divirto muito. Diga-se de passagem, até converso com ele freqüentemente pelo MSN. Porém, só vi o Alex ao vivo uma vez na vida: no lançamento do LLL – crônicas.

_____Não ter cruzado com ele muitas vezes pode não ser algo de se espantar muito, o Alex é fluminense e passa metade do ano nos Estados Unidos. Só que, nessa semana, descobri algo que acaba ligando um pouco mais a minha vida a dele: eu e o Alex namoramos a mesma moça.

_____É sério. Ele publicou um texto na Revista Papo de Homem, intitulado “Mulheres de Direita e de Esquerda” (parte I e parte II), em que conta sobre duas moças com as quais ele namorou. Pois bem, fiquem sabendo que eu namorei a Rosa. Verdade, podem ler. O nome que o Alex escolheu para a moça ao contar a história pode ser fictício, mas a descrição está muito igual, só pode ser ela. Tenho certeza.*

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* Eu fiz História na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP, a FFLCH (os estudantes pronunciam fefelech; os cariocas falam fefeléti). Foi lá que eu conheci a Rosa.

01 Abril, 2008

O triunfo da morte: Incautos do ontem

_____Desde que inaugurei este blog, venho tentando escrever uma apresentação do autor e uma justificativa para o título. Nenhum dos textos que escrevi até hoje me agradaram. Talvez este texto de hoje, composto para justificar o banner que gentilmente o ilustrador Hector Gómez Alisio fez para o blog, sirva para, pelo menos, explicar melhor o nome da casa.

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_____Peter Brueghel, o velho, foi um pintor flamengo do século XVI que é, até hoje, célebre por seus quadros que retratavam (muitas vezes em apenas uma mesma pintura) inúmeras cenas. Isso pode ser facilmente percebido, por exemplo, no quadro O triunfo da morte, escolhido para ilustrar o banner deste blog.

O triunfo da morte

_____Mesmo o olhar mais desatento é capaz de perceber mais de uma cena ao olhar essa pintura. Mesmo a mais atenta análise é capaz de deixar escapar alguma das pequenas histórias pintadas-narradas nela. Talvez apenas esse pormenor já sirva como uma boa introdução à temática do Incautos do ontem. Mesmo assim, creio ser necessário falar um pouco mais.

_____A palavra “incauto” do título remonta a falta de cautela que sempre pretendo empregar ao escrever um texto. Não uma falta de cautela para com a escrita, mas para com as críticas. Existem prisões sociais demais acorrentado o homem e, no mínimo ao escrever, eu pretendo sempre me livrar delas, falando sem medo, de maneira quase que imprudente, sobre qualquer coisa que me interesse.

_____É óbvio que não consigo me livrar de tudo que me amedronta na hora de escrever. Não é a toa que grande parte dos textos do blog são de ficção e que Ulisses Adirt é apenas um pseudônimo.

_____Já a palavra “ontem” do nome do blog está ligada ao passado, parte importantíssima da minha vida de historiador e professor. É o estudo do passado que acabou definindo grande parte das principais resoluções que acabam por pautar minha vida. É por conhecer um pouco do passado que faço determinados comentários sobre o mundo. É conhecer o passado que me dá coragem para ser incauto quando acho necessário.

_____Não vejo a pintura de Brueghel apenas como mórbida. O quadro O triunfo da morte trata de diversas situações, tal qual este blog. Trabalha com o que já pereceu ou vai perecer: o ontem. Trabalha com o que um dia vai ver a morte triunfar, mas que, até lá, se desejado, pode viver e agir da maneira menos cautelosa possível (como, por exemplo, as personagens do canto inferior direito da pintura).

_____Acredito que tudo isso pode ajudar meus leitores a entender o que acontece neste estranho blog. Acredito, talvez, por ser um incauto.


P.S.: Queira ou não, publicar toda essa explicação bem no dia 1º de abril pode ser um tanto estranho. Eu poderia, para falar a verdade, ter viajado para outras terras para justificar a escolha do nome do blog e do quadro. Mas, tudo bem, algumas vezes sou mesmo cauteloso demais. ;-)

25 Março, 2008

Postagem sem título

_____Sou péssimo escolhendo títulos! Não importa se tenho uma idéia simples, se faço uma pesquisa, se escrevo um texto longo ou um texto-piada. Quando termino, fico um tempão pensando que nome eu dou para a criança. Minha namorada que sempre me salva. Quando ela não está por perto, sempre acho que escolhi um título meia boca.

_____Está decidido: quando eu tiver filhos, ela escolhe o nome.*

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* Vai que eu faço como o Pedro Abelardo que deu o nome de Astrolábio para o seu próprio filho...

19 Março, 2008

Cartaz do curso de História da peregrinação

_____Vocês lembram do meu texto sobre Compostela e um dos motivos para a santidade do local (e, portanto, para a afluência de peregrinos para lá) que publiquei aqui no blog? Eu disse que era parte de uma propaganda de um curso de História da peregrinação que fui convidado a organizar, lembram? Pois bem, faz algumas semanas, enviaram-me o cartaz de propaganda do curso com o meu texto, todo diagramado. Ficou bem bacana, dêem uma olhada:
Cartaz do curso

Clique aqui para ver o cartaz em tamanho maior ou aqui para ler apenas o texto.


09 Março, 2008

Raízes medievais do Romance d'A Pedra do Reino

_____Li o Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, de Ariano Suassuna, pensando em participar do clube de leituras do blog O Biscoito Fino e a Massa, de Idelber Avelar, no dia 18 de fevereiro. Porém, por mais que eu tivesse gostado da obra, não achei que eu tivesse algo de muito interessante para falar e, portanto, limitei-me a ler e a acompanhar o debate. No meio das discussões que aconteceram no Biscoito, entretanto, acabei fazendo novas reflexões e percebi alguns elementos interessantes que não haviam entrado no meu rol inicial de idéias durante a minha leitura do livro. Fiz umas leituras extras e hoje, mesmo estando mais atrasado do que padre que aparece em velório para batizar o morto, aproveito para publicar, aqui, algumas das minhas reflexões sobre a obra.

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Romance d'A Pedra do Reino

_____Em uma tentativa de pontuar mudanças e se afirmar no tempo, os pensadores da Idade Moderna (1453-1789) rejeitaram o período anterior, a Idade Média (476-1453), e acabaram por construir uma imagem fortemente negativa da época. Não é à toa que, até hoje, a mais famosa alcunha para o período medieval é “Idade das Trevas”. O século XIX, por sua vez, retomou a medievália de maneira romântica, pintou o período como uma época áurea, admirável, com valores que, há muito, não existiam.

_____Por mais que muitas vezes seja difícil saber se o que está sendo falado no Romance d’A Pedra do Reino é sério, é bem fácil perceber que Suassuna segue a tradição do século XIX de louvar a Idade Média. Essa visão de um período medieval resplandecente é, sem dúvida, consciente na maior parte do livro. Tanto que existem referências e mais referências sobre Carlos Magno e seus pares de França, comparações com cavaleiros da Idade Média, doutrinas milenaristas, louvor à “nobreza”, rejeição ao que não é “aristocrático”, etc..

_____O que pretendo demonstrar com este pequeno texto é que muitos dos elementos que figuram no Romance d’A Pedra do Reino têm raízes medievais muito arraigadas no imaginário coletivo brasileiro e não poderiam, mesmo se Suassuna quisesse, deixar de aparecer na obra.

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_____Região bastante pobre do território, com fortes traços arcaizantes, o nordeste brasileiro (inclusive o “Brasil verdadeiro” de Suassuna – que se localiza entre a Paraíba, Pernambuco e Alagoas), guardou, com muita força, características medievais que, aos poucos, iam desaparecendo no mundo industrializado. O sucesso das cantigas de cordel e das histórias medievais, principalmente no sertão, não são mera coincidência.

_____Como bem fala Hilário Franco Júnior, no seu livro Cocanha: a história de um país imaginário, “A literatura de cordel preserva valores abandonados pela sociedade global, procedendo assim ‘a um processo de crítica a esta sociedade, mesmo sem o pretender conscientemente’(PIRES FERREIRA, p. 13). Tal arcaísmo gira em torno de dois grandes eixos, o do valente e o do santo, cangaceiros e líderes messiânicos, pois como Eric Hobsbawm notou, banditismo e milenarismo historicamente caminham juntos.” (p. 221). Assim como a literatura medieval associava cavaleiros e clérigos, o cordel nordestino associa cangaceiros e homens santos. O livro de Suassuna, simulacro de um grande cordel, não foge dessa tradição.

_____A louca e constante justificação de Quaderna, personagem-narrador do Romance, pouco foge de um grande louvor à valentia cavaleiresca e ao messianismo. Também é o caso da superstição, muito presente nas personagens da obra. O nordeste brasileiro é, ainda hoje, muito supersticioso e o era mais ainda na primeira metade do século XX – tal qual era absurdamente supersticiosa a Idade Média européia.

_____Quando os leitores e alunos do Idelber falam que a obra é reacionária, que Quaderna procura instaurar um reino e não acabar com a desigualdade, isso nada mais é do que parte de uma tradição medieval que valoriza a nobreza em detrimento do povo. O povo nada mais faz do que ter sua função de povo (plantar, servir e permitir a boa vida da aristocracia que os “protege”).

_____Medieval também é a reducionista visão de popular que tem Suassuna. Popular parece ser apenas aquilo que tem uma forte tradição local, um constante fugir do outro, não relacionar-se com os de fora, um viver enfeudado. Diga-se de passagem, o nordeste brasileiro da primeira metade do século XX tinha relações exíguas com o resto do país, na região o poder central era fraco. Esse poder central pífio, característico do feudalismo, acabou sendo uma das bases da sociedade coronelista nordestina.

_____É exatamente um poder central fraco que permite a existência, só para exemplificar, dos vários impérios e das pretensões de Quaderna no Romance d’A Pedra do Reino. Esses reinos acabavam por existir graças ao fraco controle de um poder central. Diga-se de passagem, o Quarto Império, herdeiro direto do Terceiro Império, o do massacre, por exemplo, acabou pela força de senhores locais, não do governo. Fazendeiros armados (uma elite forte e armada com seus jagunços) nada mais são do que uma subversão dos senhores feudais, da nobreza medieval – nobreza que, vale lembrar, lutava, que era guerreira por excelência.

_____Para terminar, é bom tomar cuidado ao analisar a obra e procurar nela (ou na época em que se passa o romance ou no momento em que ele foi escrito) raízes medievais, pois certas simplificações de análise podem facilmente terminar na boca do leitor. Por exemplo, o machismo da obra, também tão criticado pelos comentaristas do Biscoito, não é necessariamente uma característica medieval. Ele pode ter sido forte na Idade Média, mas ele é quase atemporal se a história da humanidade for vista com cuidado.

_____Vale ressaltar que criticar o machismo da obra é um pouco problemático. A ação principal acaba acontecendo na década de 1930, no nordeste brasileiro, local e época absurdamente machistas. O machismo de Quaderna nada mais é do que algo de verossímil na personagem. Esse machismo é característica de um homem nordestino da primeira metade do século XX. Fazer uma personagem desse local e época não sendo machista seria motivo para mil outras análises, talvez para outro romance. Assim como muitas das características medievais do Romance d’A Pedra do Reino são verossímeis para o nordeste brasileiro, por mais tresloucado que pareça o romance algumas vezes. Se essas características não existissem na obra é que mais ainda teria para se estranhar.

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_____Para ajudar os leitores interessados no que foi citado, darei as referências bibliográficas:

- FRANCO JR., H.. Cocanha, a história de um país imaginário. São Paulo,Companhia das Letras, 1998.

- HOBSBAWM, E.. Bandidos. Rio, Forence, 1975.

- PIRES FERREIRA, J.. Cavalaria em cordel. São Paulo, Hucitec, 1979.

_____Meu Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta é de 2007, da José Olympio Editora.

_____Além dessas obras, foi essencial para este texto um ensaio de Hilário Franco Júnior chamado “Raízes Medievais do Brasil”, publicado em 1998 pela Universidade Federal do Pará.

17 Fevereiro, 2008

Mudanças de horário

_____Que dia lindo!

_____Tenho um amigo que adora o horário de verão porque ganha uma hora a mais de luz por dia. Eu, pessoalmente, adoro a mudança do horário normal para o de verão, tanto quanto adoro a mudança do horário de verão para o horário normal (o caso de hoje).

_____É maravilhoso! De um dia para o outro, as imagens do meu dia-a-dia mudam. Eu acordo no domingo (já que o horário muda de sábado para domingo) em uma hora completamente diferente. E, segunda-feira, quando eu for trabalhar cedo, todo o cenário do mundo será diferente do que era na semana passada. Quando eu for trabalhar na academia de dança à noite, verei um céu que não via. É como se um pintor tivesse pintado com cores diferentes o fundo de um quadro que eu vejo todo dia.

_____A mudança de horários é fantástica!

P.S.: Aproveitando a deixa: para quem não sabe, estudei História na USP, no período noturno. O prédio do Departamento de História é super estranho e, por um capricho arquitetônico do autor do prédio, não tem a parede do fundo, só a da frente. O que há de mais fantástico é que o fundo do prédio é voltado para oeste e, portanto, durante toda a minha graduação eu, estudante do noturno, pude ver o sol se por. Todos os dias. Quando mudava de horário, então, eu via o sol em outro ponto. Todo mundo deveria estudar em um lugar assim.

15 Fevereiro, 2008

Trabalho manual

_____Sabem qual foi minha principal atividade de ontem? Passei a tarde toda dando uma ajuda literalmente concreta à artista Cláudia Sperb na montagem de mosaicos. Eu não tenho o menor talento para esse tipo de trabalho manual, mas, já que precisavam de ajuda, foi um prazer fazer esse serviço (tirando o fato de que ferrei as minhas mãos e que estou com dor nos dedos até para digitar). Vejam como ficou um dos mosaicos que ajudei um pouco a empedrar:

Mural do Projeto Butantan

_____Os mosaicos fazem parte de um conjunto de trabalhos de artistas gaúchos sobre animais de interesse médico e mitológico que farão parte da fachada do Museu Histórico do Instituto Butantan. A inauguração da praça devidamente calcetada será no dia 23/II, dada do 107º aniversário do Butantan. Alguns dos outros mosaicos podem ser apreciados neste link.

P.S.: Aproveitando que eu falei de uma artista, achei que valeria a pena indicar duas outras mulheres que trabalham com outro tipo arte: a literatura. Uma delas é a minha querida e doce Lulu, que mudou o endereço do seu blog. A outra é a minha amiga Isabela, que lançou neste mês um blog chamado Rotativa Alternativa, com textos muito interessantes e divertidos.

06 Fevereiro, 2008

Eles existem!

_____Hoje é uma data para ser lembrada na História. Marquem: dia 6 de fevereiro de 2008, uma quarta-feira de cinzas. Por mais absurdo que pareça, acreditem: os pedestres existem e, teoricamente, o governo até sabe disso! Sério, a partir de hoje os pedestres não terão mais de correr entre os carros ou aguardar longos minutos para atravessar a Avenida Paulista de uma só vez. Em alguns semáforos os pedestres agora têm 30 segundos para atravessar a Paulista, o dobro dos absurdamente ínfimos 15 segundos que tinham para atravessar oito pistas e um canteiro central.

_____2008 promete. Quem sabe este ano os motoristas de carro não descobrem que a segurança dos pedestres é que deve ser a prioridade?

Avenida Paulista

29 Janeiro, 2008

Uma espera longa e um dia improdutivo

_____Muitas pessoas não gostam de trabalhar. Muitas vezes elas parecem não agüentar de vontade de que o final do expediente chegue para poderem ir para casa. Se esse desgosto pelo trabalho estiver na definição da palavra trabalho, posso dizer que raramente trabalhei em minha vida. Adoro meus trabalhos e, na maioria das vezes, vou feliz e contente para o serviço.

_____Gosto muito de dançar, acabo sempre me divertindo quando escrevo, mas nenhum dos meus trabalhos é tão gostoso para mim quanto lecionar História. Ensinar História me diverte mais do que grande parte das minhas atividades praticadas nas horas de lazer. Já lecionei em cursinhos, supletivos, faculdades, porém são os colégios a minha verdadeira paixão. Meu problema é que o colégio que eu mais gostava de lecionar passou por uma troca de donos em meados de 2006 e acabou falindo bem no final do ano (depois do natal).

_____Fui pego completamente de surpresa e, então, mandando currículos de última hora, só encontrei para o ano seguinte um colégio desorganizado, cheio de problemas, desonesto, que, literalmente, engana os alunos e no qual eu tinha de fazer um esforço hercúleo para conseguir uma condição mínima para dar um bom curso. 2007, no fim das contas, não foi um bom ano neste ponto. Para alguém como eu que tem a sala de aula como um dos lugares preferidos para se ficar, isso incomodou muito.

_____Querendo encontrar um bom lugar para lecionar em 2008, desde outubro de 2007 comecei a enviar currículos para colégios. Mandei um monte, mas não obtive nenhuma boa resposta. O tempo ia passando e a chance de conseguir algo (já que as aulas começam em fevereiro) foi diminuindo – o que, obviamente, começou a me entristecer. Até a semana passada.

_____Semana passada, então, um bom colégio me ligou e marcou uma entrevista comigo para segunda-feira (ontem). Fiz a entrevista. A entrevistadora disse, então, que havia gostado bastante da entrevista, mas que tinha mais uns dez candidatos para entrevistar. Disse que no dia seguinte (hoje) ligaria para dar a resposta.

_____Cheio de esperança, passei o dia em casa. Foi um verdadeiro inferno. Cada vez que tocava o telefone, eu corria até ele. Como nenhuma das ligações era a resposta do colégio, fui desanimando com o passar do dia. A inquieta espera e o crescente desânimo fez com que o dia fosse longo e extremamente improdutivo. Não fui capaz de ler nenhum dos livros que estou lendo no momento, não importa se eram os difíceis ou os fáceis. Tentei trabalhar em alguns dos meus textos, mas nenhum deles caminhava. Minha cabeça, o tempo todo, estava em outro lugar.

_____Agora, perto da meia-noite, depois de já ter ido trabalhar na academia de dança, com a certeza de que não consegui o emprego que eu queria, está sendo possível produzir algo, mesmo que esse algo seja um texto amargo. Espero que tenha saído um texto de leitura agradável. Espero, também, que este ano, sem poder fazer direito o que eu tanto gosto, não seja tão desagradável quando este dia.