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14 Julho, 2008

Exposição para ler Machado de Assis

_____Amanhã, terça-feira, será aberta ao público a exposição “Machado de Assis, mas este capítulo não é sério”, a nova exposição temporária do Museu da Língua Portuguesa. Graças a um caso que tenho com uma moça que trabalha no Museu aos meus contatos, consegui ver a mostra na abertura para convidados e aproveito para indicá-la para os meus leitores.
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Machado de Assis

_____Brincalhona desde o seu nome, a exposição é toda dividida em capítulos. Mas, atenção, apressado leitor, não comece o passeio sem antes pegar o impresso-guia. O livreto provoca os passos do público a cada nova divisória da exposição. Aconselho uma rápida leitura de cada capítulo do guia antes de adentrar a secção correspondente – não consultá-lo é garantia de que se irá perder um interessante contraponto, uma boa curiosidade (como, por exemplo, um palavrão publicado indevidamente em uma obra do recatado Machado).
_____A exposição toda parece montada com o ideal de atrair novos leitores e não deixa de usar os mais diversos recursos para isso. O “Capítulo XXX: Irreal Gabinete de Leitura” é um ótimo exemplo: brincando o tempo todo com claros e escuros, leituras, sons e imagens em vários pontos da sala, só peca por carecer de melhores interpretes para alguns textos. Talvez conhecer Raquel Kogan, autora da obra “Reler” (exposta atualmente no Itaú Cultural), que fez um ótimo trabalho com contatos atípicos com a leitura, enriquecesse esse tipo de experiência.
_____A seleção dos textos, mesmo atentando quase que somente aos maiores clássicos machadianos, é ótima e bem distribuída. Até nos banheiros, parte integrante das mostras temporárias do Museu da Língua, podem ser encontradas leituras condizentes (perto da porta do banheiro feminino, por exemplo, o publico pode se deliciar com o provocativo “Uns braços).

Uns braços
_____A exposição não é destinada a quem tem pressa. A graça é ir para ficar com vontade de ler Machado de Assis; e ler mesmo. Não só no impresso-guia o leitor ganha um conto para levar para casa, como, também, no final da exposição, centenas de livros estão disponíveis para que o público possa sentar e se deliciar com as obras do Mulato Sabido.
_____Como costumam ser os trabalhos do Museu da Língua, vale muito à pena visitar. Para quem for, deixo o adágio de Brás Cubas que, debochadamente, os guias da exposição expõem em suas camisetas: “A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.”.

06 Julho, 2008

As novas salas do Unibanco e os arquitetos de cinema que não catam ninguém

_____Há uns meses eu publiquei por aqui uma análise das piores salas de cinema da região da Paulista. Um dos complexos duramente criticados por mim foi o Multiplex Bristol, do Shopping Center 3. Reclamei da fala de respeito dos funcionários, da má conservação das salas, da limpeza deficiente; porém, fiz um elogio importante: o Bristol é o único cinema da Paulista com poltronas love seats (as cadeiras de cinema que têm braços removíveis para que os casais, namorados, amasiados, amantes, pegadores, safados e afins possam ficar mais à vontade).

_____Qualquer um que já tenha ido ao cinema acompanhado de um pretendente que seja, sabe o quanto o braço da poltrona entre os dois, tal qual um irmãozinho chato, pode atrapalhar.

_____O Cine Bombril, por exemplo, é um cinema bastante gostoso se você vai sozinho. As poltronas são maravilhosas: macias, bem grandes, com um ótimo espaço entre as fileiras. Os braços das cadeiras do Cine Bombril são enormes. Estando sozinho no cinema, fica ótimo para se ver qualquer filme, mesmo em uma sessão lotada (só com muito esforço o chato da cadeira do lado vai conseguir esbarrar no seu cotovelo durante o filme). Duas pessoas podem pousar o braço, tranqüilamente, nos encostos. No entanto, se você quiser abraçar sua paquera durante o filme, você só vai conseguir ficando com dor nas costas. Como os braços são muito grandes e não podem ser levantados, só é possível abraçar alguém ficando mais torto do que o Quasimodo$.

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Espaço Unibanco Pompéia

_____Os novos cinemas do Shopping Bourbon pertencem ao pessoal do Unibanco. Isso, é bom deixar claro, é algo extremamente positivo já que são eles, também, os responsáveis pelas ótimas salas do Shopping Frei Caneca.

_____As salas do Unibanco Arteplex, do Frei Caneca, são limpas e organizadas, preservam a mesma qualidade desde a sua inauguração. Além disso, eles sempre organizam ótimas promoções (toda semana acontece o Clube do Professor e a Sessão Popular, por exemplo) e são um dos poucos complexos de cinema de São Paulo a exibir tanto cinema-pipoca, quanto filmes cults.

_____Pelo visto, o Espaço Unibanco Pompéia, do Shopping Bourbon, vai pelo mesmo bom caminho (só ainda não organizaram nenhuma promoção): as dez salas são limpas, confortáveis e bem estruturadas, o cinema é organizado e a programação se divide bem entre filmes alternativos e hollywoodianos. Além disso, para o segundo semestre, está prometida a inauguração da primeira sala IMAX do país.

_____O novo cinema do Shopping Bourbon só tem um defeito* grave: apenas uma sala tem cadeiras love seats.

_____Alguém pode me explicar porque fazem um cinema novinho, todo bonitinho e organizado e só colocam uma sala com poltronas de braços removíveis? Qual o problema dessa gente? Nunca pegaram ninguém no cinema? Eles não namoram? Clio que me perdoe, estou começando a achar que o problema é que têm muito arquiteto de sala de cinema que não cata ninguém.

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* Nem vou citar o preço como defeito de algum cinema, já que esse problema se tornou uma constante nos cinemas paulistanos.

16 Junho, 2008

Ser ou não ser?

_____“Que merda! Eu já li as obras completas de Shakespeare$, no original.”, gritou, aparentemente sem motivo, um primeiranista de História na mesa do bar da faculdade. “É verdade”, continuou ele depois que as pessoas da mesa dele (e algumas das mesas ao lado) começaram a olhá-lo com espanto, “eu li as obras completas de Shakespeare$, no original, e isso não me adiantou de nada. Até hoje eu nunca comi ninguém.”.

_____Eu achei que era simplesmente uma pessoa boba tentando se mostrar para os que estavam em volta ou, no máximo, tentando dar uma de louco. Porém, tenho de acrescentar, acho que o motivo para ele não ter conseguido comer ninguém é porque ele não leu com atenção as obras completas do bardo inglês.

_____Sério. Se ele resolveu dar uma de louco inteligente para chamar a atenção das meninas para ver se comia alguém, ele tinha sérios problemas. A mais famosa personagem possivelmente louca de William Shakespeare$ é Hamlet$. O atormentado príncipe da Dinamarca, por mais interessante que fosse, ainda assim, no fim das contas, não conseguiu comer sua amada Ofélia.

_____Se até Shakespeare$ deixou claro que essa história de se fingir de louco não serve para nada na hora de comer alguém, o garoto não deveria usar dessa artimanha.

_____Sem dúvidas essa história de ler as obras completas de Shakespeare$, no original, não serve para nada mesmo... se você não tiver lido direito.

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P.S.: Se alguém quiser ler um texto de alguém que, tenho certeza, leu Hamlet$ com atenção, indico o ótimo “O Stand-up de Hamlet”, do Almirante Nelson Moraes. Mas, aí, se o Nelson comeu alguém ou não, isso eu já não sei responder.

14 Junho, 2008

Mais do mesmo

_____Fui assistir Antes que o Diabo saiba que você está morto, de Sidney Lumet$, e saí do cinema com uma enorme sensação de que eu já havia visto aquilo em algum lugar. Depois de passar um tempão pensando, descobri o motivo: a base da história é a mesma da de Cães de aluguel$, do Quentin Tarantino$.

_____É claro que existem vários pontos diferentes (personagens, situações, características de cada um dos filmes), não estou dizendo que é um plágio, mas o caminho central é igual. Exatamente como Anjos e demônios$ e O código da Vince$, do Dan Bown$. Qualquer um que leu os dois livros sabe que a base de ambos é igual. Tão igual que, se eu fosse o autor$, teria ficado com vergonha de aparecer com os dois a público.

_____Tudo isso para dizer que, se houver a possibilidade de escolher, é melhor alugar e ficar em casa (re)assistindo Cães de aluguel$ do que ir ao cinema para ver Antes que o Diabo saiba que você está morto. Se a escolha for entre os livros do Dan Brown$ e o Cães de aluguel$, fique, novamente, com o Tarantino$.

07 Junho, 2008

Motivo indefinido

_____Uns dias atrás, eu e uma das minhas parceiras de dança iríamos treinar. Porém, no meio da tarde do dia combinado, o namorado dela me ligou desmarcando:

_____– Ulisses, hoje a Fê não vai poder ir ao treino. Tudo bem?

_____– Sem problemas – respondi. – O que aconteceu?

_____– Ela não vai poder ir.

_____– OK... Por quê?

_____– Nada não.

_____– Aconteceu algo?

_____– Aconteceu um imprevisto.

_____– Ah... tá bom. Nada grave, né?

_____– Depois ela te explica.

_____No fim das contas, nada de errado havia acontecido, minha parceira só tinha outro compromisso. Agora, sinceramente, não sei se o problema é a falta de definição nas justificativas das pessoas ou a minha falta de noção por não parar de perguntar quando as pessoas não querem informar algo.

22 Maio, 2008

As origens do mal-humor de House

Senhor Frederick Little
_____Dia desses eu estava assistindo O homem da máscara de ferro, de Randall Wallace, e, em um determinado momento, achei que um dos conselheiros do Leonardo DiCaprio rei Luis XIV era o Hugh Laurie, o ator que interpreta o House. Como não passaram os letreiros completos, depois do filme, fui conferir a biografia de Laurie para ver se ele havia mesmo trabalhado no filme.

_____Fiquei surpreso ao descobrir que, antes de fazer sucesso como House, Laurie não só havia sido conselheiro do rei, em O homem da máscara de ferro, como, também, havia feito muitos outros papéis menores. Até aí, tudo normal – pode dizer algum leitor –, esse costuma ser o caminho de quase todos os atores que não fazem teste do sofá. Porém, as coisas não são bem assim. O pobre do House Hugh Laurie fez um monte de papéis pequenos que, com certeza, esgotariam a paciência de qualquer ator.


_____Laurie foi o pai adotivo do ratinho Stuart Little, bandido em 101 Dálmatas e, até, trabalhou no Spice World, o filme das Spice Girls. Sem contar que, nO homem da máscara de ferro, a última participação dele no filme foi quando o Luis XIV condenou ele à morte. Não é à toa que ele virou um médico mal-humorado.


P.S.: Encontrei um vídeo que, teoricamente, fez parte da audição que Hugh Laurie fez para ser escolhido para atuar em House M.D.. Prestem atenção na cara de “acordei atrasado para o teste” que o coitado está.


P.P.S.: Quem gosta de House, talvez se divirta com o “Gerador automático de episódios de House”, do blog 7 regras básicas.

P.P.P.S.: E, quem gosta de ver o Hugh Laurie fazendo papel de mal-humorado, talvez se divirta vendo essa participação dele em Friends.


11 Maio, 2008

Psicografando

_____O texto sagrado de que melhor se conhecem as condições em que foi escrito é o Corão. Entre a totalidade e o texto, os intermediários eram pelo menos dois: Maomé escutava a palavra de Alá e a ditava a seus escribas. Um dia – contam os biógrafos do Profeta – Maomé ditava ao escriba Abdullah quando interrompeu a frase no meio. O escriba, instintivamente, sugeriu-lhe a conclusão. Distraído, o Profeta aceitou como palavra divina o que dissera Abdullah. Esse fato escandalizou o escriba, que abandonou o Profeta e perdeu a fé. (Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno, p. 186).

_____Outro dia, em uma de minhas viagens pelo metrô, sentei-me ao lado de uma moça muito bonita que estava lendo um livro. Curioso que sou, estiquei os olhos para descobrir o que ela estava lendo: mais um dos novos livros da Zibia Gasparetto.

_____Mal eu havia disfarçado uma careta, paramos na próxima estação e uma velhinha sentou no assento que estava vago à nossa frente. Qual não foi minha surpresa quando vi que ela é que primeiro puxou papo com a moça:

_____– Nossa, você também está lendo Onde está Teresa?? – E, tirando outro exemplar da bolsa, completou: – Olhe, estou bem no fim do meu.

_____Poderia ser uma introdução de história bacana se o objeto do papo não fosse o livro de uma escritora de qualidade tão duvidosa. Será que o espírito que “dita” os livros relê? Fico abismado com a velocidade com que essa mulher consegue matar árvores escrever.

_____Pena que os leitores de auto-ajuda espírita não têm o mesmo bom senso do Abdullah, do livro do Italo Calvino, nem a Zibia, o discernimento da personagem da tirinha abaixo, do Rafael Sica.

Ordinaria 1901

P.S.: Aproveitando o assunto, indico a divertidíssima “historinha com moral espírita” do Rafael Galvão.

06 Maio, 2008

O fim justificado da civilização asteca

_____Não precisei ler As veias abertas da América Latina para me revoltar com o absurdo que os espanhóis fizeram com as civilizações pré-colombianas da América. Claro que o interessante livro de Eduardo Galeano fez com que eu me revoltasse ainda mais, porém, desde que tenho o mais básico conhecimento de História, eu já sentia uma grande sensação de revolta pelo desleal massacre. Mesmo depois que me tornei historiador e conheci muito mais sobre o tema, pouco de minha opinião sobre o extermínio dos povos pré-colombianos mudou. Até ontem.

_____Ontem, entrei na cozinha e vi, em cima da mesa, uma garrafa de Groselha Asteca. Sedento por lembrar do delicioso gosto da bebida, coloquei um tanto em um pequeno copo e entornei o líquido garganta abaixo. Por Clio, que horror! Aquilo queimou minha garganta; era ruim que até doía. Tão doce que foi por muito pouco que não me tornei diabético instantaneamente. Praguejei conta a groselha. Cheguei mesmo a dizer que, se os astecas haviam servido aquela bebida para o Cortez, que o massacre estava justificado.

Groselha Asteca

_____Minha namorada, vendo minhas injúrias, perguntou o que havia acontecido. Expliquei para ela o ocorrido. Ela, entre gargalhadas, explicou para o ignorante do namorado dela, que eu deveria misturar o líquido da garrafa com água para que aquele “veneno mexica” virasse mesmo groselha (estava nas letrinhas miúdas da garrafa).

_____Sentindo-me, pela segunda vez na mesma semana, o ser mais estúpido do mundo, segui a receita dela e, admito, a bebida ficou muito gostosa. Diga-se de passagem, minha namorada também me ensinou a colocar umas gotinhas de limão no líqüido fica ainda melhor (se eu já conhecesse esse truque quando criança, teria gostado mais ainda de groselha).

_____O melhor desta história toda é que continuo achando o massacre espanhol um absurdo e não vou mudar mais de opinião nem se me servirem xocoatl*.

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* Bebida mexica, derivada do cacau, de gosto muito amargo.


30 Abril, 2008

Ilustrando a postagem alheia

_____A Carol Costa contou em seu blog a sua versão divertida sobre nossa ida a uma gafieira. Para nos reconhecermos, ao invés de indicar para ela meu cabelo mal cortado, eu disse que iria com um livro de bolso do Conan Doyle na mão. Ela disse que iria “bem bailarina” e reclamou que não servia nada eu dizer que seguraria um livro em uma livraria (nosso ponto de encontro). Falei para ela não se preocupar, pois somos blogueiros e o Google iria nos ajudar. Falei isso para ela, pois eu havia amarrado uma fitinha amarela de São Google, brinde da Loja do Bispo, em meu tênis de dançarino.

Fitinhas de São Google

_____Tudo isso está descrito no blog dela, quem clicou no link já sabe essa história toda. O texto da Carol, como de costume, está bem divertido. Entretanto, fui eu que levei uma máquina e só aqui que os leitores de ambos podem dar uma olhada no meu pé com a fitinha, junto ao pezinho dela, com a sapatilha de bailarina.

Pés de dançarinos


P.S.: A Carol é o máximo, tão divertida pessoalmente quanto nos seus textos. Só que ela não é muito normal. Sinceramente, não aconselho que ninguém a deixe tomando conta de alguma criança.

27 Abril, 2008

Estátua mais do que viva

_____Estou um tanto cansado, pois acabei de participar, quase que direto, de vários eventos da Virada Cultural. Foi uma delícia, acabei me divertindo até não poder mais.

_____Quando cheguei em casa, porém, ao conversar com a minha família sobre o que eu havia visto e gostado, fiquei intrigado com o resultado. Mesmo tendo visto parte de um workshop de culinária judaica, apreciado a feitura de um HQ ao vivo, escutado alguns shows de rock e de blues (além do show folk da Mallu Magalhães), visto algumas apresentações teatrais, participado de uma roda de samba, assistido uma apresentação de piano, ido para algumas exposições e um monte de outras atividades, o que mais gostei neste ano foi de uma estátua viva.

_____Sempre vejo pela Paulista artistas de rua tentando ganhar uns trocados como estátuas vivas e raramente gosto. Entretanto, dessa vez, eu fiquei um tempão olhando o artista, o cara era absurdamente bom. A movimentação dele na hora de agradecer as moedas era hipnotizante de tão bem feita. Sem contar a maquiagem. Fiquei tão atônito com o cara que até me esqueci de tirar uma foto para mostrar para vocês.

_____O mais interessante, é que essa estátua viva foi o único trabalho artístico que não estava ligado à Virada que eu presenciei neste final de semana e, no fim das contas, foi o que eu mais gostei. Deveria ter anotado o contato do cara.

25 Abril, 2008

Efeito da imigração japonesa para o Brasil

_____Não sei se já contei para vocês: minha sogra é filha de um casal de japoneses que emigraram do Japão. Durante toda a infância, ela foi criada em um local afastado, no interior do Paraná, comunicando-se apenas em japonês com os parentes. Hoje em dia, depois de mais de quarenta anos residindo em Sampa e separada dos pais, ela fala português sem problema algum, sem o menor sotaque. Mesmo assim, ela nunca esqueceu a língua com a qual foi criada.

_____Mesmo parecendo interessante, às vezes esse fato é, para mim, motivo de um belo tormento. Dona de um senso de humor bastante peculiar, minha sogra (que ensinou um pouco do idioma oriental para os filhos) vive introduzindo, no meio de alguma conversa, falas em japonês. O problema não é só ela falar algo que não entendo. O caso é que ela costuma falar muitas frases em idioma nipônico para os filhos no meio de conversas que têm comigo e, em seguida, desanda a gargalhar.

_____Sempre fico perdido e ela não faz muita questão de traduzir. Minha namorada, depois de rir um pouco de mim, por vezes serve de tradutora. Mesmo assim, como eu disse, ela só serve de tradutora algumas vezes. Normalmente ela apenas se diverte com a situação.

_____Se vocês querem saber, na maior parte das vezes em que fico sem saber o que está sendo dito, tenho a impressão que, depois de muitas falas em japonês, a frase que antecede as risadas é alguma variação de “Ocidental bobo esse Ulisses, né?”.

23 Abril, 2008

Contra o analfabetismo? Mesmo?

_____Grande parte dos blogs que leio, acabo lendo por meio do Google Reader, meu leitor de feeds. Mesmo sendo fácil e cômodo, tem o problema de fazer com que eu deixe acumular algumas leituras e acabe lendo muitos textos com certo atraso.

_____Acabei de ler, por exemplo, um texto interessante do Allan, do blog Carta da Itália, sobre a campanha “A blogosfera brasileira contra o analfabetismo” que acabou me dando um novo assunto para tratar com vocês. Mesmo sabendo que os textos contra o analfabetismo deveriam, para participar da campanha, ter sido publicados no dia 18, creio que tenho um texto interessante que vale ser revisitado por conta dessa discussão. É o “NoCu da professora”, publicado aqui no Incautos em novembro do ano passado.









_____Escrevi o “NoCu da professora” por ter encontrado um texto absurdamente mal escrito que uma professora de História de uma escola pública paulistana passou para os seus alunos. Sinceramente, se querem fazer uma campanha contra o analfabetismo, eu aconselho que, caso a “blogagem coletiva” sobre o tema se repita no próximo ano, não adotem como tema simplesmente “blogagem coletiva contra o analfabetismo” e, sim, “blogagem coletiva contra o analfabetismo dos professores”.

_____Tentar combater o analfabetismo sem pessoas realmente preparadas para isso é um pouco difícil. Como disse o Allan, o MOBRAL, um dos programas brasileiros de alfabetização, “ensinava” as pessoas “a ler e escrever, mas poucos alunos saíam de lá com capacidade de compreender e interpretar textos de uso cotidiano. Produzir um texto escrito, então, nem se fala.”. E, como bem lembrou o Doni, do Hedonismos, a pressão da sociedade para que algo melhore é muito importante.

_____Uma sociedade que não se importa com professores semi-analfabetos “ensinando” tem graves problemas. Para não citar apenas o meu texto como exemplo, pergunto: vocês nunca cruzaram com um blog de um professor que escrevia excessivamente mal? Quando encontraram esse blog, fizeram algum comentário público? Enviaram, pelo menos, algum e-mail para o “professor” semi-analfabeto autor do blog? Ignorar o problema, com certeza não ajudou a resolvê-lo.


P.S.: Já que a “blogagem contra o analfabetismo” foi feita no dia 18, dia nacional do livro infantil, aproveito para contar que, por coincidência, tive a sorte de publicar este texto aqui no blog hoje, dia 23/IV, dia mundial do livro.

P.P.S.: Diga-se de passagem, no dia do livro existe um costume em parte da Espanha que eu achei uma graça. As mulheres dão um livro de presente para os homens e recebem, como retribuição, uma rosa. Lindo, não?

15 Abril, 2008

Caridade inteligente

_____A revista Ocas” poderia ser apenas mais uma revista de esquerda que trata de temas ligados à cultura, à política e à sociedade. Entretanto, ela tem um projeto social bem definido que faz dela única: o objetivo principal da revista é ajudar pessoas em situação de rua.

_____Por mais atípico que pareça, a revista não é vendida em bancas de jornal. Em circulação desde 2002, a Ocas” só pode ser encontrada em determinados pontos culturais da cidade*, vendida por moradores de rua credenciados. Os vendedores ficam com dois terços do preço de capa (eles compram a revista por um real e vendem por três), conseguindo, assim, um apoio financeiro para tentarem se reintegrar socialmente, mudando a atual situação marginal em que vivem.

_____Tentando auxiliar um pouco o projeto, alem de ser um leitor fiel, na edição deste bimestre (a edição de março/abril, número 58), eu colaborei com um artigo (que a editora chefe fez o favor de mutilar um pouquinho). Portanto, os leitores do blog que se divertem com minhas estripulias literárias, podem ler uma reportagem minha no último número. É um artigo de duas páginas, sobre academias de dança de salão que fazem trabalhos sociais. Está publicado nas páginas 24 e 25, com meu nome verdadeiro (não com o meu pseudônimo de personagem de clássico grego).

_____Por enquanto, eu não vou publicar o artigo por aqui, pois vai ser bem bacana se eu conseguir fazer com que algum dos meus leitores dê uma mão para a revista. O projeto da Ocas” é muito bonito e creio que eles merecem uma chance. Acreditem, sempre aparece alguma reportagem bem interessante nas suas edições (obviamente, o artigo mais interessante da edição de março/abril é o meu, mas vocês podem encontrar outros que também são válidos ;-)). Espero que gostem.

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* Pelo que eu saiba, a Ocas" é vendida, atualmente, apenas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Vocês podem dar uma olhada onde comprá-la no site da revista.

09 Abril, 2008

A culpa é da gravidade

Aviso aos passageiros

_____As pessoas são tão absurdamente estranhas...

_____Entrei no elevador de serviço do prédio em que moro junto com uma velhinha. Antes da porta fechar, seguraram o elevador e mais cinco pessoas entraram – duas a mais do que o elevador tem anunciado como seu limite. Coincidência ou não, quando o elevador foi fazer sua primeira parada, parou entre dois andares. Algumas pessoas dentro do elevador começaram a reclamar, outras se desesperaram.

_____Como sempre ando com um pocket book em mãos, aproveitei que não olhavam para minha cara e retomei a leitura que eu havia começado antes de pegar o elevador. Só que, como o elevador também não parou direito em nenhum dos próximos andares, o desespero das pessoas foi aumentando e acabei me vendo obrigado a interromper a leitura.

_____Falei que deveria ser o excesso de peso, pois estavam no elevador mais pessoas que o permitido. Um moço de barba estourou e começou a bradar bem alto que aquilo era bobagem, que a culpa era do síndico e daquela péssima empresa de manutenção de elevadores, que todos os funcionários do prédio eram uns incompetentes e eu tenho certeza que, se o elevador não tivesse voltado para o térreo pouco depois, ele iria culpar até a gravidade.

_____Chegando ao térreo, umas pessoas pareciam extremamente aliviadas, enquanto outras soltavam seus últimos xingamentos “aos péssimos elevadores do prédio”. Apressados, todos saíram do elevador “defeituoso” e foram para o elevador social. Sem me preocupar, continuei no de serviço (mesmo ouvindo a velhinha falar que eu iria ficar preso novamente). Apertei o meu andar e continuei lendo meu livro.

_____O meu elevador subiu perfeitamente. Entretanto, como ainda consegui ouvir o homem de barba berrar algum impropério antes que eu abrisse a porta do meu apartamento, não posso dizer o mesmo do outro elevador.

_____Nem imagino se o problema do outro elevador foi causado pelo excesso de peso/pessoas. Só sei que, se as pessoas fazem algo que um aviso proíbe, elas não têm nada o que reclamar se alguma coisa dá errado. São uns doentes hipócritas mesmo.

P.S.: Essa história me lembrou um texto interessante do Marco Aurélio. Vejam se o caso não encaixa bem.

P.P.S.: Para quem gosta de tirinhas, também tenho uma indicação bacana sobre o tema.

05 Abril, 2008

Coincidência

Rosa

_____Faz muito tempo que acompanho os textos do Alex Castro, do Liberal, Libertário, Libertino, e sempre me divirto muito. Diga-se de passagem, até converso com ele freqüentemente pelo MSN. Porém, só vi o Alex ao vivo uma vez na vida: no lançamento do LLL – crônicas.

_____Não ter cruzado com ele muitas vezes pode não ser algo de se espantar muito, o Alex é fluminense e passa metade do ano nos Estados Unidos. Só que, nessa semana, descobri algo que acaba ligando um pouco mais a minha vida a dele: eu e o Alex namoramos a mesma moça.

_____É sério. Ele publicou um texto na Revista Papo de Homem, intitulado “Mulheres de Direita e de Esquerda” (parte I e parte II), em que conta sobre duas moças com as quais ele namorou. Pois bem, fiquem sabendo que eu namorei a Rosa. Verdade, podem ler. O nome que o Alex escolheu para a moça ao contar a história pode ser fictício, mas a descrição está muito igual, só pode ser ela. Tenho certeza.*

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* Eu fiz História na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP, a FFLCH (os estudantes pronunciam fefelech; os cariocas falam fefeléti). Foi lá que eu conheci a Rosa.

25 Março, 2008

Postagem sem título

_____Sou péssimo escolhendo títulos! Não importa se tenho uma idéia simples, se faço uma pesquisa, se escrevo um texto longo ou um texto-piada. Quando termino, fico um tempão pensando que nome eu dou para a criança. Minha namorada que sempre me salva. Quando ela não está por perto, sempre acho que escolhi um título meia boca.

_____Está decidido: quando eu tiver filhos, ela escolhe o nome.*

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* Vai que eu faço como o Pedro Abelardo que deu o nome de Astrolábio para o seu próprio filho...

21 Março, 2008

As águas de março e o camelô

_____Quem é paulistano já deve ter percebido que as águas de março estão realmente fechando o verão. Está chovendo bastante nas últimas semanas.

_____Como nem todos são tão ricos como eu (que tenho dois helicópteros na garagem), as pessoas têm de arrumar algum jeito de sobreviver nesse nosso pobre país capitalista. Alguns vendedores ambulantes, mal começa a cair algumas gotas do céu, surgem por geração espontânea pela cidade vendendo guarda-chuvas.

_____Um lugar infalível para encontrá-los é na saída das estações de metrô. Você está lá, andando de metrô, debaixo da terra, sem saber o que acontece na superfície e, quando sai da estação, acaba sendo surpreendido pela água. Sabendo disso, em toda porta de estação do metrô em momentos de chuva surgem, pelo menos, uns dois mascates oferecendo guarda-chuvas.

_____Eu e minha namorada entramos no metrô com o dia claro e seco e, quando fomos sair na nossa estação de destino, as águas de março estavam nos esperando do lado de fora. Um simpático camelô nos ofereceu um guarda-chuva.

_____– Querem um?

_____Recusei enquanto tirava uma sombrinha vermelha da minha mochila.

_____– O seu é pequeno, comprem mais um. Assim cada um pode usar um guarda-chuva. – Insistiu o rapaz.

_____Sorrindo, respondi:

_____– Não precisa, é melhor um guarda-chuva só. Assim posso ficar abraçando ela.

_____Depois de sorrir também, o vendedor respondeu:

_____– Se quiser, tenho um guarda-chuva infantil. É bem pequeno e você vai poder abraçá-la mais ainda.

_____Ando duro e não comprei, mas admito que o cara tem talento para vendas.

13 Março, 2008

Escreveu, não leu...

_____É óbvio que ninguém é obrigado a ler o que eu escrevo. Porém, depois de algum tempo de blog, eu acabei me acostumando a ter leitores e fico muito feliz com isso. Muitos eu nem sei que existem, mas os que já se manifestaram, foram lidos com todo o carinho (quer eu tenha ou não gostado do comentário). Existem aqueles que sempre falam algo, uns que comentam por aqui só de vez em quando e outros, ainda, preferem se comunicar comigo por e-mail.

_____É bem gostoso me relacionar de alguma forma com quem me lê (ainda mais porque, que eu saiba, não tenho leitores psicopatas), mesmo que seja apenas com um sorriso meu deste lado da tela. Porém, acostumado com os comentários, acabei ficando mal-acostumado.

_____No último domingo publiquei um texto que me deu um imenso trabalho sobre o Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, de Ariano Suassuna. Por melhor que seja o livro, ele é imenso e tem algumas partes um pouco entediantes. Lê-lo já de